TRANSCENDER

Oscar de "Melhor Filme Estrangeiro" (2018), Una Mujer Fantástica retrata os obstáculos da mulher trans na cidade de Santiago.


Por FELIPE VIVEIROS*


O cinema na América do Sul é uma aula de Sociologia. As produções locais são como professores que abrem, de modo perspicaz, nossas mentes para cenários mais justos e democráticos. A disparidade social, o trabalho doméstico, o racismo, a vida nas periferias e as sombrias experiências com as ditaduras militares são temáticas de grande importância e, por isso, recorrentes na produção cinematográfica do continente.


Entre os países com maior e mais visível produção cultural, destacam-se a Argentina e o Brasil, que iluminaram as telas dos cinemas sul-americanos — e muitas vezes internacionais — nas últimas décadas. Questões delicadas de "um continente de vários continentes" revelam uma luta constante quando a herança do passado é a assimetria de igualdade no presente.


Tema ainda tabu em nossa sociedade é a diversidade de gênero. Dos 14 países e territórios que integram a América do Sul, apenas cinco reconhecem e garantem o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Política nova de respeito à cidadania, que teve início há 10 anos na Argentina, a equidade dos direitos de casamento se estendeu ao Uruguai e ao Brasil em 2013, chegou a Colômbia em 2016 e, no ano 2019, conquistou o Equador. Mas, atenção: aqui bem perto, na Guiana, a discriminatória lei segue na contramão do progresso social, criminalizando relações homossexuais com pena de até três anos de cadeia.


O único filme sul-americano a ganhar um Oscar de "Melhor Filme Estrangeiro" nos últimos 10 anos, não é brasileiro, nem argentino, mas sim do Chile. Foi o primeiro longa na história do país premiado na categoria. Una Mujer Fantástica (2017) descortina o tema tabu do nosso continente e retrata, com sutileza, os obstáculos da mulher transgênero na cidade de Santiago. A obra é dirigida por Sebestián Lelio — o mesmo diretor de Gloria (2013) — e estrelada por Daniela Vega, a primeira atriz transgênero da história a se apresentar no renomado palco da cerimônia do Oscar em Los Angeles, EUA. Em 2018, a revista Time a nomeou como uma das 100 pessoas mais influentes do mundo. Ela é cantora lírica, e de muita qualidade; e mostra este seu talento no filme.


foto: divulgação


O filme revela o desprezo legal das autoridades e a rejeição social para com a imagem da mulher trans. A produção é um registro realista do ponto de vista da personagem principal, Marina, que com a súbita morte de seu parceiro, Orlando, bem mais velho do que ela, passa por situações constrangedoras que envolvem policiais, detetives, perícia e membros da família do morto. Embora fosse a companheira de Orlando, os médicos não aceitam o seu nome de mulher, os policiais desconfiam de sua identidade, a detetive suspeita de prostituição e a família do parceiro não entende "o que ela é".


O filme traz passagens inteligentes de indagação projetadas pela personagem, que chega ao limite ao ser proibida pela família do parceiro de ir ao enterro. Vista apenas como um objeto de perversão, Marina em momento íntimo, coloca um espelho entre as pernas e vê não o seu sexo, mas sim o seu rosto, sua identidade. A jovem, em cena mágica e cansada de tudo, caminha contra vento que a alça e faz com que desabe diante da correnteza de um viver às margens do considerado como normal.


fotos: divulgação


Como uma boa aula de Sociologia, não é na teoria que se faz a prática. Embora a América do Sul tenha visto a ascensão de transgêneros à política, como Tatiana Piñeros (Colômbia), Tamara Adrián (Venezuela), Diane Rodriguez (Equador), Michelle Suárez (Uruguai), o continente é responsável pelos maiores índices de transfobia do mundo. E o Brasil lidera o ranking. A expectativa de vida dos transgêneros no país é de apenas 35 anos; ou seja, a expectativa de vida de um cidadão na Idade Média.


A vitória dessa mulher fantástica não só se concretizou na Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, de Hollywood (EUA), mas também na luta LGBTQ+ do Chile. Foi a sétima arte que mudou a política, colocou o debate na agenda pública em caráter de urgência, alavancou o projeto de lei e levou o país sul-americano a garantir aos seus cidadãos o direito de mudar de gênero, sem a necessidade de cirurgias ou de ordem judicial.


Una Mujer Fantástica é um filme chileno, mas de mensagem universal. Em meio à paisagem moderna da cidade de Santiago, é a mentalidade retrógrada que reflete nas janelas dos arranha céus. O filme abre nossos olhos para que a repulsa emocional, o medo, a raiva e o desconforto de muitos não sejam o vento que leve as "Marinas" do nosso continente para longe dos cenários justos e democráticos que todos ansiamos.


*Felipe Viveiros, graduado em Relações Internacionais pela PUC-SP, tem extensão universitária em Comunicação Empresarial pela Universidade da Colúmbia Britânica (Canadá) e é mestre em Relações Internacionais e Organização Internacional pela Universidade de Groningen (Holanda).


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