SUSPIRO DO HIMALAIA

Filme White Sun retrata o embate familiar e político entre maoístas e monarquistas no Nepal.


Por FELIPE VIVEIROS*


Em uma vila no alto das montanhas, você ouve o suspiro do Himalaia. Gelado, cortante, misterioso. Um segredo isolado do mundo que, pelo domínio de primeiros-ministros hereditários, permaneceu escondido até a década de 1950. Um mosaico étnico-linguístico de origem indo-iraniana e tibetana que circula entre o hinduísmo e o budismo. Um país que passou por terremotos geológicos e políticos, que viu ruir e restaurar a monarquia, a ditadura, o parlamentarismo e a democracia. Pelas cordilheiras do cinema, o filme White Sunnasce atrás dos montes nevados e ilumina o entendimento de uma sociedade tão complexa e diversa: o Nepal.


Situado no conflito da Guerra Civil Nepalesa a produção, do aclamado diretor Deepak Rauniyar, expõe tradições e crenças políticas intrincadas nas fissuras sociais, étnicas e religiosas do país. O cineasta tornou-se o primeiro diretor nepalês a competir nos grandes festivais do Mundo. Fundou, em 2010, uma produtora dedicada a desenvolver filmes socialmente conscientes sobre o país asiático. A Guerra Civil no Nepal começou em 1996, quando o diretor tinha apenas 17 anos, e se prolongou até 2006. Hoje, mais de duas décadas após o início do conflito, os cidadãos vivem diferentes batalhas da mesma guerra. É essa experiência que traz o filme White Sun.


Sendo o “nepalês” tanto nacionalidade quanto língua nacional, o povo do Nepal não compartilha uma única etnia. Desde o início de seu povoamento, correntes migratórias de grupos asiáticos do Tibete e de povos indo-arianos do norte da Índia, produziram um caleidoscópio de tonalidades sociais. O Nepal, atualmente, abriga mais de 120 idiomas, dezenas de diferentes etnias. O longa é interpretado em nepalês, mas também em gurung, língua e etnia local.


foto: divulgação


White Sun provocou uma reação acalorada devido ao retrato único e realista da situação contemporânea vivida pelos nepaleses, um país ferido em sua História por longos anos de guerra civil. A trama desdobra, com habilidade, a macro história do Nepal nos “micro-detalhes” de sua narrativa. Com falsa premissa simples, o roteiro toma como ponto de partida a morte e o funeral do líder de um remoto vilarejo. A cerimônia e os rituais são a trilha de pedras políticas encontradas pelo caminho.


O líder do vilarejo está morto e é preciso que alguém ajude a retirar corpo de casa. A tarefa é tão difícil quanto conciliar revolução e tradição no país. Costumes proíbem que um morto seja removido pela porta da frente. Os anciãos do vilarejo, debilitados pela idade, não são suficientes para carregar o corpo, assim como as tradições do Nepal já não são suficientes para sustentar o país que busca mudança. As mulheres da vila e as pessoas de castas mais baixas teriam capacidade para ajudar, mas não podem. A tradição proíbe que sequer toquem o cadáver. Regras estritas sobre quem pode tocar, carregar ou mesmo passar pelo corpo revelam a falta de prática das tradições e a inconveniência dos preconceitos de gênero e classe. A situação se desdobra em esforço, fora do normal, para remover o corpo através uma estreita janela.


O filho do líder, Chandra – interpretado por Dayahang Rai – retorna da capital Kathmandu para o remoto vilarejo depois de uma década lutando junto às forças rebeldes comunistas. Sua chegada gera tensão, a mesma que permeia as últimas décadas de história política do Nepal. Chandra não é um “filho pródigo”. É um maoísta, guerrilheiro que lutou, corajosamente, contra os monarquistas durante a longa guerra civil do país. Na sequência de abertura do filme, Chandra sobe as encostas rochosas até sua vila no alto da montanha, carregado de malas e bagagens. Sobrecarregado pelo passado.


fotos: divulgação


A Guerra Civil do Nepal foi um conflito entre o governo monárquico e os rebeldes maoístas do Partido Comunista. Os revolucionários exigiam a saída do rei e o estabelecimento de uma república. O conflito durou 10 anos, mas não teve fim. A volta do rebelde maoísta para enterrar seu pai monarquista é metáfora elaborada com delicadeza sobre o renascimento do Nepal, após décadas de agitação política. O filme revela que o drama pessoal está entrelaçado nas posições políticas mais sublimes de nossas sociedades. Chandra, descobre que as mudanças pelas quais lutou ainda não chegaram na vila que deixou há anos. Os líderes da rebelião maoísta não aceitam a paz e os monarquistas, que perderam a guerra, agarraram-se às crenças reacionárias. O revolucionário volta para enfrentar antigas batalhas.


Anciãos que obedecem às leis tradicionais de enterro exigem que o guerrilheiro maoísta carregue o corpo de seu pai pela montanha com seu irmão Suraj –interpretado por Rabindra Singh Baniya – seu rival ideológico na guerra civil do país. Os irmãos não conseguem deixar de lado os sentimentos políticos enquanto carregam o corpo do pai pelo íngreme caminho que se estende montanha até as margens rio, onde é feita a cremação. Os pontos de vista dos irmãos entram em conflito. Suraj abandona o corpo do pai, deixando Chandra sozinho com a responsabilidade.


O revolucionário busca ajuda para obedecer às rígidas castas e às tradições discriminatórias de gênero da cerimônia, dois aspectos da cultura nepalesa que lutou para eliminar durante a guerra civil. Contra sua vontade, pede ajuda à polícia, à vila vizinha, aos convidados de um casamento, aos seus ex-camaradas de luta que diferem dele por rejeitar o fim do conflito. A poesia do longa reside na necessidade de tolerância dos nepaleses para superar as castas da História que ainda separam o país mesmo após o Acordo de Paz, em 2006.


White Sun capta uma paisagem política que não é muito vista no cinema. O longa mostra como as revoluções não são feitas apenas de guerra, mas por anos de persistência que se arrastam por gerações. O título White Sun se refere ao sol branco da bandeira não quadrilateral do Nepal, em contraste com a escuridão dos custos humanos da guerra civil. O cadáver do líder na remota vila é o regime do rei, derrubado após 10 anos de guerra civil. A luta de Chandra para transportar o corpo de seu pai é a jornada para que o revolucionário perceba que, apesar de milhares de vidas perdidas em nome do progresso, as antigas divisões sociais e familiares permanecem. O Nepal é um país montanhoso, de altos de baixos. A revolução não mostra sinais de evolução, quando o passado não repousa sereno. A conciliação é o suspiro do Himalaia.


*Felipe Viveiros, graduado em Relações Internacionais pela PUC-SP, tem extensão universitária em Comunicação Empresarial pela Universidade da Colúmbia Britânica (Canadá) e é mestre em Relações Internacionais e Organização Internacional pela Universidade de Groningen (Holanda).


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