OS MODERNOS PÓS-MODERNOS

Filme uruguaio desmistifica a vida adulta em Montevidéu. A maturidade humana mostra-se inacabada e sempre em construção.


Por FELIPE VIVEIROS*


A longa sombra de Buenos Aires se estende sobre o Rio da Prata até Montevidéu. A capital uruguaia é comparada, com frequência, à irmã e rival argentina. Um erro. O mais amplo estuário fluvial do mundo é um espelho invertido onde as similaridades são diferentes. Enquanto Buenos Aires é uma metrópole que vive tradição e se define por “seu passado ilustre”, Montevidéu é o oposto. Um centro urbano compacto que exala juventude em suas esquinas.


Com um quarto da população do Uruguai com menos de 15 anos de idade, o sentimento juvenil da capital floresce na pulsante cena artística e no estilo de vida composto por inúmeros restaurantes e cafés ao ar livre. A paisagem cultural se desenha ao longo da rambla e seus 27 quilômetros de esplanada à beira-mar. Não surpreende que, nos últimos anos, o Uruguai tenha se tornado um país interessante para locações e experimentado um boom cinematográfico nacional e internacional. Com a demanda de cineastas do mundo todo, a prefeitura de Montevidéu publicou, até mesmo, um “Guia de Localização Para Cineastas”.


Podemos não ter percebido, mas o cinema argentino não está sozinho em cartaz. No tapete vermelho do Rio da Prata, a “Suíça da América do Sul” – com seus 3,5 milhões de habitantes – faz sentir sua presença produzindo cerca de 10 filmes por ano. De maneira diferente das produções cosmopolitas argentinas, os longas uruguaios têm surpreendido com histórias densas e dramas contemporâneos como o filme em preto e branco Los Modernos (2016).


foto: divulgação


Uma ode à complicada beleza dos relacionamentos amorosos em Montevidéu, a trama é representação do “adulto moderno” e de seus traços de personalidade. Fausto (interpretado pelo ator e diretor Mauro Sarser) e Noelia Campo (no papel de Clara) desmistificam a geração que, embora balzaquiana, nunca se define como sendo um grupo com mais de 30 anos. O ambiente social da capital uruguaia é de artistas da produção audiovisual, teatro, fotografia e música. Junto com as imagens da rambla, dos bares Tasende e Tinkal e da Biblioteca Nacional, a maturidade humana mostra-se inacabada e sempre em construção.


Fausto é um editor freelancer de filmes. Clara é a produtora do programa de televisão aberta mais “intelectualmente pretensioso” do Uruguai. O casal trabalha junto em um projeto de documentário. Os protagonistas discutem, separam-se, perdem o emprego, viajam, questionam suas tendências sexuais, enfrentam a decisão de um aborto e vão para o interior do país para refletir sobre o seu estilo de vida. Em oposição ao título do filme, a estrutura dramática busca pelo clássico com referências a diretores estabelecidos como Woody Allen, ao representar o absurdo das conversas e discussões de casal. O nostálgico preto e branco, aplicado a uma história atual, pode ser associado a Manhattan. A maneira como Montevidéu é filmada não se limita a tentar fazer das suas ruas uma Nova York, e sim uma forma de amar a própria cidade uruguaia pelo cinema.


O longa observa, em tom agridoce, como as circunstâncias levam a vida das pessoas em direções imprevisíveis, obedecendo nossas oscilações de afetividade. Apaixonar-se, perceber que estava apaixonado e sentir o desejo de ter um filho nem sempre dependem de decisões voluntárias. A história principal se ramifica em enredos secundários e, assim como em nossas vidas, os encontros ocasionais é que são os protagonistas.


fotos: divulgação


O filme tem o compromisso de retratar um micromundo que, ironicamente, é imenso. O longa tem suas raízes no mundo cultural e lida com os interesses típicos desse ambiente. Os diálogos giram em torno de questões como a pós-modernidade e contemplam, no ponto de vista da juventude adulta uruguaia, diversidade sexual, opções alternativas à vida familiar e trabalho estável. O conceito de “maturidade” revela como é difícil ser adulto. A ambiguidade da vida, a subjetividade das nossas relações e nossos sentimentos são muitas vezes – embora naturais – absurdos. Isso é capturado com astúcia na trama.


Fausto e Clara terminam o relacionamento. Ana, a nova parceira de Clara, engravida porque Clara ainda mantinha relações casuais com Fausto. As namoradas caminham no parque e o jovem conhece a nova parceira. Em poucos minutos, eles passam da inépcia da saudação para a ideia de se tornarem pais. Os três. É o trio amoroso que dá corpo ao filme e no retrato do infantilismo que move a idade adulta, discutem a liquidez das relações onde tudo é importante – e nada é tão relevante. O filme naturaliza as liberdades sociais em termos de comportamento, mas argumenta contra outras tendências da sociedade, posicionando-se em uma atitude de resistência nostálgica. Há comentários sobre a insensatez do volume ensurdecedor de música nas festas e observações sobre como a vida só é saudável em uma comunidade alternativa.


Dirigido pela dupla Mauro Sarser e Marcela Matta, a trama tem elementos que não são comuns no cinema uruguaio. As obras mais significativas da produção nacional foram caracterizadas por um estilo de poucas palavras, câmera fixa e ritmo de edição moderado. Los Modernos é a juventude em diálogo constante na externalização dos desejos pessoais. A produção não é uma homenagem a Woody Allen, mas uma descoberta original uruguaia, baseada no mesmo caráter. São as frustrações e conflitos presentes na vida adulta que mostram a imprevisibilidade da juventude em Montevidéu. É o cinema uruguaio renovado.


Seriam Fausto e Clara "modernos" porque são atuais ou são atuais porque vão contra a modernidade? Numa época em que a pós-modernidade rompeu com as narrativas clássicas, propor um retorno ao clássico talvez tenha tornado-se a transgressão de hoje. Tenhamos nós 30, 40, ou 50 anos, nostalgia e revolução pessoal caminham juntas nos (in)finitos quilômetros da esplanada à beira-mar da vida. A juventude só envelhece quando o envelhecimento de nossas ideias nos torna juvenis.


*Felipe Viveiros, graduado em Relações Internacionais pela PUC-SP, tem extensão universitária em Comunicação Empresarial pela Universidade da Colúmbia Britânica (Canadá) e é mestre em Relações Internacionais e Organização Internacional pela Universidade de Groningen (Holanda).


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