O UIVAR DA AMÉRICA

Cantora do Clã Lobo da Nação Oneida, mostra aos EUA que é preciso escutar os que sabem conviver com o próprio planeta.


Por FELIPE VIVEIROS*


A maior e mais conhecida indústria musical, cinematográfica e de entretenimento do Mundo. Um país que combina grandiosidade econômica com meticulosa diplomacia cultural. Nação que determina os filmes que você assiste, as músicas que você ouve, os programas de televisão que você conhece e os videoclipes que marcaram sua vida. De Frank Sinatra à Beyonce, de Cidadão Kane à American Pie, de Flintstones à Friends, os Estados Unidos têm um impacto diário no seu entendimento sobre o que significa ser “norte-americano”.


O mainstream e a cultura ocidental têm suas armadilhas. Não conhecemos o país mais conhecido do mundo. Muito antes de ser habitado por dinners com cheeseburgers diferenciados, a terra da liberdade vivia em liberdade com ancestrais que haviam chegado há pelo menos 15.000 anos. No século 21, quem nos faz ter consciência disso é Joanne Shenandoah, a cantora nativo-americana mais aclamada de sua época.


A vocalista é membro do Clã Lobo da Nação Oneida, pertencente a Confederação dos Iroqueses. Assim como os Cayuga, Cherokee, Huron, Mohawk, Onondaga, Seneca e Tuscarora, os Oneida fazem parte dos povos que ocupavam o território ao redor dos lagos onde estão localizados os atuais estados de Nova Iorque (EUA), Pensilvânia (EUA), Ontário (Canadá) e Quebec (Canadá). Nascida em 1958 e filha de um chefe Onondaga – guitarrista de Duke Ellington – sua família respirava música. Seus pais a incentivaram no estudo de canto, flauta, piano, clarinete, violão e violoncelo e a nomearam Joanne de Tek-ya-wha-wha-wha, "ela canta" em português. O verbo “cantar”, em língua iroquesa, também inclui ouvir. O nome reverberou a ancestralidade e surtiu efeito. Ela canta. Nós ouvimos. E muito.


foto: divulgação


Na cultura indígena Oneida, a música é apenas uma parte do que você é. São treze cerimônias por ano, e a cada celebração há cantos específicos. Ninguém no território iroquês havia gravado discos de maneira profissional. Shenandoah é pioneira e tem como base sua milenar herança para inovar um cenário contemporâneo. A artista criou trilhas sonoras para programas de televisão como Northern Exposure (1990) e How the West Was Lost (1993), mostrando que Hollywood é também indígena. Ancestralidade moderna que saber inovar as tradições, “ela canta” e sabe manter sua identidade. Tem orgulho do que, realmente, significa ser “norte-americano”. O faz com propriedade,seu povo tem passado esse ensinamento há pelo menos 15.000 anos. Claro, com muitos obstáculos.


A colonização europeia das Américas – que começou em 1492 – resultou em um declínio da população indígena norte-americana. As novas doenças, a limpeza étnica e a escravidão interromperam o seu canto. Depois que as 13 colônias se revoltaram contra a Grã-Bretanha e estabeleceram os Estados Unidos, parte da política estatal consistia em "civilizar" os nativos-americanos para a assimilação como cidadãos americanos. Tratada como “voluntária” em muitos livros de história, essa assimilação incluía massacres contra povos originários, retirando-os de suas terras sob tratados unilaterais e políticas governamentais segregativas. No país da liberdade, os indígenas não puderam escolher. É por isso que, com início no século 20, o ativismo da cantora não se reduz apenas a sua firme voz.


O ativismo indígena, desde o final dos anos 1960, aumentou a participação política com intuito de preservar e ensinar as línguas nativas às gerações mais jovens. Indígenas norte-americanos, em resposta a séculos de exploração e discriminação, fundaram jornais independentes e outros tipos de mídia como o First Nations Experience, o primeiro canal de televisão indígena-americano. Os grupos de ativistas conquistaram programas de estudos indígenas nas universidades, para que não fossem “objetos de estudo”, e sim, teóricos para contribuição intelectual – o que traduz grande parte da política iroquesa.


Parentesco e localidade eram as bases da vida política dos iroqueses. Oradores natos, gostavam de reuniões, passando um tempo considerável no conselho da comunidade. Cada organismo desses tinha protocolos próprios e dispositivos de participação para obter consenso. Milhares de anos depois, Shenandoah mantém a tradição. Celebridade diplomata, a indígena é presidente da Round Dance Productions, fundação educacional sem fins lucrativos dedicada à preservação da cultura iroquesa. A instituição dedica-se à criação de um arquivo de música tradicional nativo-americana, centro de artes cênicas e estúdio de gravação. Não por coincidência, a filha chefe do chefe Onondaga foi homenageada com o prêmio Native American of the Year, em 1993.


foto: divulgação


A cantora, em seu ativismo musical, faz diluir as fronteiras que separam o “nós” do “eles”. A conexão acontece de alma para alma. Sobrevivência cultural é importante, mas a importância maior é perceber as contribuições que fazemos uns aos outros. A música ocidental pode ser indígena, e os indígenas podem ser ocidentais. O conhecimento da ancestralidade é moderno, inovador, mantém-se atual. Quando buscamos o desenvolvimento, devemos escutar aqueles que sabem conviver em harmonia com o próprio planeta. Um ensinamento aos que não enxergam a natureza como algo natural.


Ser membro do Clã Lobo da Nação Oneida é um sucesso. A Nação Oneida é formada por três clãs, sendo o Lobo muito semelhante à personalidade dos lobos das florestas. Na matilha da vida, suas discussões são sobre a comunidade. A terra para os nativo-americanos era de uso comunitário. Já para os europeus, propriedade privada. Seriam os indígenas socialistas? A natureza responde: não se pode privatizar o respeito.


Preservar a terra e língua iroquesa, na música, é se envolver em um cobertor quente durante uma noite fria do Hemisfério Norte. Um abraço e aconchego ancestral, que dá sentido a vida. Temos saudade do que nos conecta com um céu de terra, na superfície estrelada de nossas ruas, mentes e mares. As faixas de Joanne Shenandoah são como canções de ninar os inquietos e acalmar os impacientes das cidades. É verdade, os Estados Unidos têm um impacto diário em nosso entendimento sobre o que significa ser “norte-americano”. Membro do Clã Lobo, Shenandoah é a voz doce do tempo, uma bússola cultural para os que estão perdidos na cidade, mas que desde sempre, e para sempre, são feitos de natureza. O uivar da América.


*Felipe Viveiros, graduado em Relações Internacionais pela PUC-SP, tem extensão universitária em Comunicação Empresarial pela Universidade da Colúmbia Britânica (Canadá) e é mestre em Relações Internacionais e Organização Internacional pela Universidade de Groningen (Holanda).


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