O ROCK DOS HUNOS

Banda The Hu conquista o mundo inovando o heavy metal com elementos tradicionais da cultura mongol.


Por FELIPE VIVEIROS*


Ásia, o maior continente do planeta, abraça o mundo. A região ocupa um terço da parte sólida da Terra, e faz fronteiras com todos os demais continentes. Estende suas mãos para um passeio histórico e geográfico aos vizinhos Europa, África, Oceania e América do Norte.


Nossa mente é mais rápida em relacionar o nome "Ásia" ao avalanche de sushis, cup noodles, animes e grupos de k-pop que tomaram conta da cultura popular, em nível internacional. Como em um videogame, nosso imaginário sobre esse continente projeta luzes que, muitas vezes, ofuscam nossa visão sobre a real dimensão do que está em jogo.


O nome "Ásia" é muito mais um termo geográfico do que define um continente homogêneo. A região carrega um potencial de diversidade que, como mãos continentais, se estende desde o Estreito do Bósforo, na Turquia, até a Ilha de Sumatra, na Indonésia. Em um estalar de dedos, entre o Tibete e o Nepal, temos o ponto mais alto da superfície da Terra, o Monte Everest. Ao cerrar os punhos, temos o ponto mais baixo, o Mar Morto entre Jordânia e Israel.


foto: encyclopaedia britannica, inc


Os mais de 11 fusos horários da região indicam não só a diferença de tempo dos países, como também de outros diversos "fusos horários" de idiomas, religiões, costumes e modos de vida. Inventores do papel, da pólvora e da bússola, a civilização asiática ensina o resto do mundo há 4.000 anos, muito antes do lado ocidental. É estranho imaginar, mas tanto Buda quanto Jesus Cristo eram asiáticos.


A Mongólia conquistou boa parte da Ásia, no século XIII, com o exército de Genghis Khan e, nos últimos dois anos, tem conquistado o mundo com o heavy metal folclórico da banda The Hu. Entre o aural e o popular, o grupo harmoniza o tom do rock pesado com o canto gutural típico da região siberiana de Tuva. O canto, conhecido como "difônico", consiste na emissão de dois ou mais sons simultâneos por uma única pessoa. Ou seja, duas vozes em uma só garganta. “Hu”, em mongol, significa "ser humano".


Com proposta inovadora o "ser humano", nascido em 2016 e, fora do comum, viralizou nas redes e os seus primeiros dois clipes já contam com mais de 83 milhões de visualizações no Youtube. A banda intitulou seu estilo musical de "Hunnu Rock", inspirada no Império Huno, que despontou no século IV, e chegou a dominar a Europa Ocidental no século seguinte. Não é para menos, o "rock dos hunos" do The Hu pode ser apreciado pelos ouvidos de quem se surpreende com antigos gritos de guerra e poesia em mongol.


foto: divulgação


Formada em 2016 em Ulaanbataar, a capital da Mongólia, o conjunto de guerreiros é composto por Gala, Jaya, Enkush e Temka. Gala e Enkush tocam o Morin Khuur, instrumento mongol de arco de corda, considerado o símbolo da nação e uma das "Obras-Primas do Patrimônio Oral e Intangível da Humanidade", segundo a UNESCO. Jaya, não come acarajé nem dançou a batucada de ioiô-iaiá, mas toca o berimbau de boca (Tumur Khuur) como ninguém! Também impressiona com suas técnicas de Tsuur, flauta típica usada pelo povo Altai Uriankhai do oeste da Mongólia. Por fim, Temka é quem manuseia o Tovshuur, alaúde de duas ou três cordas tocado pelos povos Altai e Tuvan, também da parte ocidental do país. O Tovshuur tem o carinho do povo mongol, que como o cavaquinho em nossas Festas Juninas, acompanha as apresentações folclóricas de canto e dança.


Interpretado em mongol, o álbum de estreia "The Gereg" é exceção aos tempos da dominação anglo-fônica e subiu em primeiro lugar ao pódio dos Top New Artists da Billboard. A música do Ocidente havia sido proibida na Mongólia da Era Comunista até o ano de 1992. Hoje, é o Ocidente que tem o prazer de receber a música e os cantos folclóricos do país asiático, que conquistou até celebridades como Elton John. O compositor britânico fez questão de entrar em contato com a banda, e revelou ser fã do quarteto.


The Hu tem uma agenda de shows que, como a Mongólia do século XIII, vai de ponta a ponta do continente. Com um diferencial: trarão o som inovador que já existe há milhares de anos para solo brasileiro, com apresentações marcadas em dezembro deste ano (2020) no Rio de Janeiro, São Paulo e Curitiba. Como quem abraça o mundo, The Hu veio para mudar o cenário da música global e discutir, ao som de heavy metal, a poética mongol do que significa (ser) humano.


*Felipe Viveiros, graduado em Relações Internacionais pela PUC-SP, tem extensão universitária em Comunicação Empresarial pela Universidade da Colúmbia Britânica (Canadá) e é mestre em Relações Internacionais e Organização Internacional pela Universidade de Groningen (Holanda).



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