O BLUES DO DESERTO

Banda tuaregue do norte do Mali revela pela música a rica história do Saara.


Por FELIPE VIVEIROS*

"O melhor álbum de Tinariwen ainda não foi gravado. Talvez nunca venha a ser. Porque a melhor música de Tinariwen não é tocada frente aos microfones. É a música tocada à noite ao redor do fogo, em seu próprio país, entre as pessoas e em seu próprio ritmo. Depois da refeição e de tomar chá, os homens trazem seus violões, conversam, lembram de canções antigas e deixam a música fluir. Em tais momentos, a música pode se tornar como uma fogueira: livre, mágica e impossível de se colocar em uma caixa."

É assim que o grupo de músicos tuaregues do norte do Mali, Tinawiren, abre a seção "Sobre nós" em seu site oficial. A declaração do grupo é porta aberta para a viagem musical de um povo, minoria em todos os países que habita e maioria entre as regiões do Saara.


A amplitude histórica dos tuaregues, assim como sua música, flui naturalmente. O povo, embora originário do norte da África, não é árabe. São berberes, falam tamaxeque e usam alfabeto tifinague, símbolo político de sua identidade. Autointitulados Imazighen, os "homens livres", são parte da população nômade que enriquece as areias do deserto.


A música acalma as marcas ainda abertas do passado, une, questiona, delimita quem seriam ou quem poderiam ser os tuaregues, povos marginalizados por décadas pelos governos do cinturão africano de Schel. Os Estados locais os negligenciaram e muitos deles se posicionaram contra sua existência. Irônico ou não, tanto no Mali quanto no Níger, um número expressivo de "homens livres" fugiram em busca de liberdade nos campos de acolhimento na Argélia. Essa é a história dos integrantes da banda Tinawiren, fundada pelo guitarrista e vocalista Ibrahim Ag Alhabib.


foto: divulgação


Alhabib, aos quatro anos, testemunhou a execução do pai em uma revolta contra o governo do Mali. Criança já era adulto. O músico se fez músico, montando o próprio violão com um recipiente plástico de água, um pedaço de pau e um fio para pesca. No final dos anos 1970, juntou-se aos artistas da comunidade rebelde tuaregue, explorando sua própria identidade e os cantos sonoros mais variados da música de protesto... Com um diferencial: a influência contrabandeada de Elvis Presley, Led Zeppelin, Santana e Jimi Hendrix que chegavam em discos clandestinos vendidos na região.


Combinação pouco usual, o blues do deserto - conhecido também por Tishoumaren ou rock tuaregue - tomou forma como expressão cultural. Para quem não entendeu, Tinawiren é um Jimi Hendrix de Timbuktu, um Elvis Presley de turbante, um Led Zeppelin do rio Níger, um Santana da África pós-colonial. Conduzida pela guitarra, a música da banda trabalha ritmos e melodias ao estilo africano de blues rock com arranjos áridos do violino de uma corda só, do tambor de pele de cabra e do alaúde dos contadores de história. E são tantas as histórias...


Os grupos tuaregues nunca foram livres, lutaram durante anos por independência de sua nação com o fim do colonialismo francês no Mali. Com a insatisfação dos novos governos, fome, repressão política generalizada, se rebelaram. Em língua Tamashek, o nome da banda, Tinawiren, significa "meninos de deserto". E realmente o são. A lírica e a temática das músicas exploram os contínuos impasses políticos, sociais e humanitários enfrentados não só pelo Mali, como também, por sua população mais vulnerável.


foto: divulgação


A história social do blues do deserto é parte da própria história do norte da África. Em 1980, o político Muammar al-Gaddafi emitiu um decreto que convidava jovens tuaregues a um treinamento militar completo na Líbia. Alhabib, o fundador dos Tinawiren, e seus companheiros responderam ao chamado e fizeram nove meses de treinamento. Cinco anos depois, com mais preparo, os integrantes da banda aderiram ao movimento rebelde tuaregue na Líbia. Com um estúdio improvisado e cassetes caseiros, a música dos Tinawiren foi comercializada em toda a região e usada para motivar os guerrilheiros.


Em 1989 a banda retornou ao Mali, na vila natal de Alhabib. Era a primeira vez em 26 anos que o músico fundador respirava o seco ar da sua aldeia de origem. Entretanto, foi o orvalho de seus próprios ideais que manteve seus objetivos claros. Apenas um ano mais tarde, o povo tuaregue revoltou-se contra o governo e os membros da banda entraram firmemente na luta como combatentes rebeldes. O tratado de paz foi conquistado em 1991 e os músicos, finalmente, deixaram a rebeldia da guerrilha para se dedicarem à rebeldia do som em tempo integral.


A banda conquistou o público fora da região do Saara com o álbum de estreia "The Radio Tisdas Sessions" (2001). Quatro ano mais tarde receberam o Prêmio BBC paraWorld Music. Sua popularidade aumentou ainda mais em 2007, com o lançamento de "Aman Iman" ("Água é vida"), aclamado pela crítica internacional. Dos palcos do deserto do Mali aos palcos dos grandes festivais, tocaram em eventos como o Coachela nos EUA, Roskilde na Dinamarca e Glastonbury na Inglaterra. O álbum Tassili, gravado no deserto da Argélia, ganhou o Grammy de Melhor Álbum de World Music em 2012, e é um bom começo para os que buscam o oásis que é a música do grupo.


A marginalização, seja de qualquer âmbito social, gera feridas irreparáveis para aqueles que não são rebeldes por escolha, mas por se encontrarem em condições de submissão. O povo tuaregue realmente não cabe em uma caixa, são os "homens livres" que fugiram em busca de liberdade e que, agora, levam a rebeldia da sua própria história para o mundo. Podem não ter alcançado a autonomia ou, até mesmo, formado seu próprio estado-nação, mas mostram com a música que um povo só pode se tornar uma fogueira mágica se for livre.


*Felipe Viveiros, graduado em Relações Internacionais pela PUC-SP, tem extensão universitária em Comunicação Empresarial pela Universidade da Colúmbia Britânica (Canadá) e é mestre em Relações Internacionais e Organização Internacional pela Universidade de Groningen (Holanda).



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