MURALISMO DE SONS

Bandas vanguardistas do México mostram que o rock não é só para rockeiros.


Por FELIPE VIVEIROS*


São muitas as canções mexicanas que já encantaram o mundo. Do bolero "Bésame Mucho", de Consuelo Velásquez, ao clássico "La Cucaracha" eternizado durante a Revolução Mexicana do começo do século XX. O ritmo do país latino–e norte-americano–sempre tocou gerações. Há, até mesmo, aqueles que jamais se esquecerão da música tema de "Rebelde", novela adolescente produzida pela Televisa e febre no Brasil dos anos 2000.


Esse é o México? Talvez uma parte. A música mexicana reflete a beleza do país, mas contrasta culturas e contraculturas, abraça e questiona as influências do vizinho EUA e propõe identidade pan-americana com elementos típicos e regionais. As diferenças na música mexicana são os recursos para criar um espaço cultural diverso e crítico. Os conjuntos e bandas de um país tão diverso, de influência ameríndia e europeia, nos oferecem o prazer de notas elaboradas na guitarra elétrica, como as de um chocolate asteca e a intensidade performances explosivas, como as de um bom shot de tequila. É o caso dos integrantes de Molotov, uma das maiores bandas do país.


Esperando mariachis? Nada disso! O quarteto, formado na Cidade do México, em 1995, foi comparado aos Beastie Boys, Rage Against the Machine e Red Hot Chili Peppers por diversas revistas de música. Conhecidos por suas canções políticas, satíricas e de crítica social ao governo e à sociedade mexicana, o sucesso do grupo os colocou cinco vezes no pódio do Grammy Latino. Combinando hip-hop, funk, rock e rapcore sua música é incendiária, assim como as temperaturas do famoso Deserto de Chihuahua. Canções como "Gimme Tha Power" não só acumulam quase 100 milhões de plays no Spotify, como também se tornaram hinos para os que buscavam voz contra o paternalismo do governo mexicano no tumultuado clima político do final dos anos 1990. Coincidência ou não, depois do sucesso do hit, o povo elegeu finalmente–e por voto popular–um presidente de uma agremiação política diferente do Partido Revolucionário Institucional (PRI), que comandava o país por ininterruptos 70 anos.


foto: divulgação


O rock vanguardista não se conteve apenas na capital do país. Direto de Monterrey, conhecida até mesmo como "Seattle do México", surgia em 1997, o grupo Plastilina Mosh. A banda faz parte do movimento Avanzada Regia de Monterrey, pote de ouro de diversos talentos da música mexicana. A proximidade transcultural da fronteira com os EUA e a influência musical de bandas estadunidenses de estilo brit-pop deram base para que o grupo se tornasse um dos mais emblemáticos do movimento. O hit "Niño Bomba" dominou as rádios do país à época de seu lançamento, impulsionando o sucesso da banda que começou a flertar, também, com elementos de rap e dance music em diversas idiomas como inglês, italiano e francês. O duo tem quatro álbuns de estúdio lançados e é muito popular na América do Norte, com aparições em trilhas sonoras de jogos de PlayStation e filmes mexicanos de renome como "Y Tu Mamá También".


foto: divulgação


Quando o tema é variedade e popularidade, uma eclética gama de influências pulsa no coração da música alternativa mexicana, responsável muitas vezes pela construção de uma "identidade global latina". O próprio termo "latino alternativo" foi cunhado no final dos anos 1990 por executivos de gravadoras americanas como forma de promover música para ir além das fronteiras dos EUA. Uma das grandes bandas responsáveis por essecrossoveré a lendária Café Tacvba. Com influências da música popular mexicana, características do punk e da eletrônica, seu estilo musical cobre uma grande variedade de gêneros, embora seja rotulada como "rock en español". O grupo mostra identidade pan-americana ao homenagear a música nortenha, como na canção "La Ingrata", fazer o uso do hip-hop com gírias mexicanas e brincar com o bolero, a ranchera e até o speed metal. A banda tem álbuns produzidos por grandes nomes como o Dave Friedmann (The Flaming Lips e Weezer) e seu álbum "Cuatro Caminos" ganhou o Grammy de Melhor Álbum de Rock Latino de 2004.


foto: divulgação


Pioneirismo, popularidade e influência não faltam no rock mexicano. O caráter popular e transnacional da cultura do país faz com que bandas como La Maldita Vecindad y Los Hijos del Quinto Patio sejam as mais escutadas pelos ouvintes ansiosos em discutir os problemas e aventuras de uma sociedade que anseia melhorar seu status econômico. Os integrantes do grupo incorporam elementos estéticos do pachuco, contracultura associada ao empoderamento e rejeição da assimilação da sociedade americana. O som do grupo é como um ska cubano e um bolero de rockeiro em viagem ao México, que começou no final dos anos 1980 com um movimento chamado "Rock en tu idioma". A banda alcançou grande reconhecimento internacional e apareceu no cenário musical mexicano com estilo inédito para a época. Como a música é um espelho de identidade, sociedade e resistência, La Maldita Vecinindad reflete a cultura de rua da Cidade do México, bem como os diversos movimentos populares do país. O próprio nome do grupo "Vecindad" refere-se aos bairros residenciais que compartilham pátios e áreas comuns, como banheiros e lavanderias; quanto mais pátios uma "vecindad" tem, mais pobre tendem a ser. Algo familiar aos que assistiram ao icônico seriado de televisão mexicano "Chaves".


foto: divulgação


Bandas como Molotov, Plastilina Mosh, Café Tacvba e La Maldita Vencindad (...), revelam a música como força motriz de mudança. Seja para agitar o cenário underground, promover mudanças políticas ou explorar as histórias do México em suas canções, o rock mexicano não se define no próprio gênero. É uma gama eclética de influências que busca raízes desde o folclore tradicional, até o hip-hop e a música eletrônica. A cena da música no país está longe de ser regional e revela cada vez mais grande potencial para uma identidade mais abrangente, contadora de histórias de uma parte do continente que é, ao mesmo tempo, latina e norte-americana. O rock mexicano é rico em variedade de gêneros, temas e contundente em suas exigências de revolução social, política e econômica. Um Muralismo de sons que se tornou respeitado internacionalmente, tanto quanto as pinturas gigantes de Rivera, Orozco e Siqueiros.


*Felipe Viveiros, graduado em Relações Internacionais pela PUC-SP, tem extensão universitária em Comunicação Empresarial pela Universidade da Colúmbia Britânica (Canadá) e é mestre em Relações Internacionais e Organização Internacional pela Universidade de Groningen (Holanda).

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