MESCLA OU CONFLITO? MÚSICA!

Sul-americano, caribenho, indiano, africano. Músicos da Guiana mostram na desigualdade étnica, igualdade de mesclas.


Por FELIPE VIVEIROS*


Faz calor. As chuvas fortes pulsam a vida da floresta que cobre cerca de três quartos de um território pequeno e de grande variedade étnica. Embora compartilhe fronteira com o Brasil, sua cultura dialoga muito mais com a dos vizinhos caribenhos e das Índias Ocidentais do que a nossa. Entre indígenas, descendentes de africanos e indianos nasce o único país de língua inglesa em nosso continente: a Guiana.


O navegador Cristóvão Colombo avistou a Guiana em 1498, mas foi a Holanda que iniciou a invasão europeia por volta de 1580. Conhecido como “costa selvagem”, o país mudou de mãos com frequência passando por administrações francesas, holandesas e britânicas. Com a abolição do tráfico de escravos no século 19, foi importada a mão-de-obra da Índia.


A maioria do povo do país é descendente de escravos africanos e de indianos, que imigraram para trabalhar nas plantações de cana-de-açúcar. Os problemas étnicos entre os dois grupos têm desempenhado um papel perturbador na sociedade guianense. De 1953 a 1966 – ano da independência – a história política da colônia foi tempestuosa. O começo da década de 1960 foi marcado por greves e tumultos, envolvendo brutal violência entre os grupos étnicos afro-guianenses e indo-guianenses. Hoje, músicos da Guiana escrevem uma nova história, como o cantor de chutney Terry Garaj.


foto: divulgação


Nascido na aldeia de Fyrish, Garaj é o “típico” sul-americano: guianense, indiano e neto de um líder do mandir – um templo hindu. Rapaz do campo, não tinha televisão em casa. Uma vantagem. Seu maior entretenimento era aprender a tocar instrumentos. No final dos anos 1980, inspirado pela crescente popularidade do chutney – que não é o molho, mas tem molho musical –, decidiu seguir carreira artística. Não poderia ser diferente. O gênero chutney é a fusão da música folclórica indiana – conhecida como Bhojpuri – com calipso e soca caribenha. Um estilo importado de Trinidad e Tobago e autêntico da história social da Guiana. Tudo o que o cantor mais queria era misturar a Índia com a América do Sul. E conseguiu.


Terry Gajraj dominou a cena musical da Guiana durante os últimos 30 anos. Lançou seu primeiro álbum Soca Lambada, em 1990, e o single Guyana Baboo, em 1994, impulsionando seu nome para aclamação internacional. Legítimo filho da costa selvagem, Terry Gajraj domou o mundo como um dos cantores mais bem sucedidos da Guiana. E usou sua influência para mudar o país. O artista dedicou parte de sua carreira na luta para apaziguar a tensão racial que atormenta a Guiana, revelando unidade e solidariedade. A canção Yuh Kangalang, em parceria com o afro-guianense Jumo Primo, funde chutney e soca, uma homenagem às duas principais etnias da Guiana traduzidos nos dois principais gêneros musicais do país – um afro e outro indiano. O valor da cultura não está na homogeneidade de sua sociedade, mas na singularidade de seu sincretismo cultural.


Os indo-guianeses formam o maior grupo étnico do país, eles representam cerca de metade da população. Os afro-guianenses constituem cerca de 40% dela, e abandonaram as plantações após a abolição do tráfico de escravos. A discriminação de ambas as etnias foi grande e a transição não foi fácil. Hoje, a música da Guiana é como sua gastronomia. Mescla de temperos sul-asiáticos e africanos, com pimentas explosivas e o açúcar das frutas tropicais frescas. Sabor contagiante, como mostra o cantor e compositor Blakkamoore.


foto: divulgação


Nascido na capital Georgetown, o músico tem se destacado como uma inspiração que, assim como seu país, navega entre os mais variados estilos e cores. O senso de melodia do guianês e a habilidade para transcender gêneros consolidou seu status como artista de relevância para a indústria musical. Ainda jovem, o músico mudou-se para Nova Iorque, onde se viu em um caldeirão artístico de reggae jamaicano, hip-hop norte-americano e cumbia latina. Tentou adaptar o sotaque guianês. Desistiu. A identidade falou mais alto e abriu espaço para trabalhar com grandes artistas como o astro do rap, Snoop Dog, para quem escreveu diversas faixas no álbum Snoop Lion: Reincarnated (2013), nomeado para o Grammy Awards.


O álbum Upward Spiral (2020) mostra o crescimento e o desenvolvimento do artista guianês. Com 20 faixas, o disco representa um olhar para as jovens rugas do passado, influenciado pelas músicas dos anos 1950 e 1960 que tocavam nas rádios locais da Guiana. Blakkamore mostra que, embora haja uma abundância de artistas em seu país de origem, ainda falta infraestrutura adequada para os negócios da música. O álbum – que é um sucesso – foi produzido inteiramente nos Estados Unidos. Autêntico e sincero, o trabalho é mensagem de libertação. A música deu ao artista oportunidade de se expressar de maneira plena. Suas letras, conscientes, são mensagens para que a justiça aos marginalizados não seja apenas um apelo apaixonado e romântico. Nas ondas do som, a sociedade guianense não é nem africana, nem indiana. Uma ruptura que é transversal. Transcende, transgride, transborda.


A Guiana tem um rico passado cultural, mas nas terras de seu próprio povo, são os nativos adotados quem pregam intolerância. Desde a independência, em 1966, a presença de personalidades políticas fortes e divisões raciais baseadas em suspeitas mútuas de manipulação tem prevalecido. Enquanto os políticos do país deixam um legado racialmente polarizado, são os cantores quem lançam luz sobre a versatilidade de suas raízes. A mudança pessoal leva à mudança global. Terry Gajraj e Blakkamore revelam que não somos todos iguais, e jamais seremos. Ser guianense é ser africano, indiano, caribenho e sul-americano. É sentir o que poucos são. Somos o verdadeiro equilíbrio de nossas próprias babilônias políticas e raciais.


*Felipe Viveiros, graduado em Relações Internacionais pela PUC-SP, tem extensão universitária em Comunicação Empresarial pela Universidade da Colúmbia Britânica (Canadá) e é mestre em Relações Internacionais e Organização Internacional pela Universidade de Groningen (Holanda).



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