LUTAR FORA DO RINGUE

Filme nicaraguense La Yuma é um nocaute no patriarcado que permeia a sociedade centro-americana.


Por FELIPE VIVEIROS*


Em cada lugar do Mundo, parece normal que tenhamos distintas expectativas político-culturais. Embora a América Central seja o istmo que conecta dois gigantes continentes, a região não é o istmo central de nossas discussões populares. Mas, deveria ser. Para longe do senso comum de nossas telas de cinema, vamos mergulhar no país dos poetas Rúben Darío e Pablo Antonio Cuadra, em mescla de espírito sandinista e revolução pessoal.


O filme La Yuma (2009) foi o primeiro longa-metragem a sair da Nicarágua, desde 1989. A roteirista e diretora Florence Jaugey abandonou sua carreira como atriz para escrever e dirigir a história da Nicarágua contemporânea. E não foi em vão. La Yuma é ficção da realidade e realidade da ficção. Um drama que, embora vestido de história, vive a História das ruas. A produção abre as janelas da América Central e deixa fluir, sem heroísmo ou tabus, as desigualdades sociais e de gênero na região.


O modelo de sucesso nas tramas cinematográficas de Hollywood, normalmente tem fórmula pronta. Começa com um protagonista em circunstâncias adversas, e termina em sucesso exorbitante, que inclui um milionário contrato profissional e muita fama. La Yuma não é um filme de Hollywood. Ainda bem. O sentimento de liberdade e conquista na Nicarágua, sua capacidade de superação não resulta em mansões em Malibu, ou até mesmo em prêmios internacionais. As expectativas irrealistas do cinema norte-americano são substituídas por uma autêntica história de sucesso. Sútil como a vida.


foto: divulgação


A trama tem como elemento central uma jovem mulher que luta para se tornar boxeadora. Desafiando o patriarcado e as árduas condições de um bairro de baixa renda na capital, Manágua, a personagem está determinada a fazer do boxe seu bilhete de saída. Yuma, aos 20 anos de idade, enfrenta muito mais em casa do que dentro do ringue. O que faz falta não é só o dinheiro, mas o amor de sua família. O filme mostra que suas luvas de boxe não vencem, mas conquistam o cinturão de campeão da empatia e do respeito.


O roteiro deixa o espaço livre para a atriz Alma Blanco delinear verdadeiro retrato de uma jovem em busca de independência. Yuma aceita emprego em uma loja. Em seu primeiro dia, ela testemunha um roubo que coloca Ernesto em seu caminho, um estudante de Jornalismo de família de classe média educado nos ideais da Revolução Sandinista. O encontro entre a boxeadora da periferia e o estudante de classe média causa desconforto a ambos. É por meio de Ernesto que Yuma descobre uma Nicarágua de música, diversão e contato com a natureza. Por outro lado, devido à Yuma, Ernesto é confrontado com a realidade do país que tanto ama, com o estado de violência sabido... Porém ainda desconhecido.


O amor faz desbotar as diferenças sociais, até que emergem as tensões. O ex-namorado de Yuma – e líder de uma gangue local – tem ciúmes da boxeadora. A jovem como quem encarara as realidades da vida só no ringue, continua com o seu romance como se nada tivesse acontecido. À medida que os moradores do bairro percebem o crescente desapego de Yuma pela comunidade, o crime organizado ordena que Ernesto seja repreendido.


O castigo é uma surra. A violência, comum para muitos que fogem das abordagens policiais nas periferias de Manágua, chega bem perto da classe média nicaraguense. O incidente coloca Ernesto e Yuma em posições antagônicas – pugilistas de cantos opostos, separados por uma desigualdade sem vencedores. La Yuma faz entender os recentes protestos dos jovens contra o regime do presidente da Nicarágua, Daniel Ortega.


foto: divulgação


Após a ocupação da Nicarágua pelos Estados Unidos em 1912, a dinastia política da família Somoza chegou ao pode e governou o país por mais de 40 anos – de 1937 até 1979. A era da família Somoza foi caracterizada pelo aumento da desigualdade social e da corrupção política, pelo forte apoio dos EUA ao governo, bem como pela dependência de corporações multinacionais sediadas nos EUA. Os sandinistas – supostamente – representariam o contrário.


Daniel Ortega liderou a Nicarágua de 1979 a 1990, após a Revolução Sandinista que finalmente derrubou a ditadura da família Somoza. Líder da Frente Sandinista de Liberação Nacional, Ortega implementou políticas para alcançar reformas em toda a Nicarágua. Era a promessa de mudança. Entretanto, o governo que traria liberdade e medidas progressistas se tornou cada vez menos democrático a cada ano. Ortega venceu as eleições presidenciais de 2006, e nunca mais deixou o poder. De revolucionário a mantenedor do status quo, seu governo vem desmantelando a democracia institucional da Nicarágua, assumindo controle da Assembleia Nacional, Suprema Corte, forças armadas, judiciário, polícia e Ministério Público.


A desilusão da classe média de Ernesto, criada sobre os ideais da revolução, desvenda o lado sombrio do pós-revolução na sociedade nicaraguense. As abordagens sociais e culturais dos direitos da mulher – embora sempre hajam negacionistas – são mais parecidas com as da Nicarágua do que gostaríamos de admitir. Yuma luta contra um adversário físico. O saco de pancadas é a falta de estrutura para se desenvolver como jovem. É um nocaute fora do ringue no patriarcado que permeia grande parte da sociedade nicaraguense. A determinação e a coragem de Yuma empoderam de baixo para cima, de maneira diferente como faz o presidente da Nicarágua. A vida talvez traga poesia como as de Rúben Darío e Pablo Antonio Cuadra. Mas, são os versos, estrofes e rimas do cotidiano que levam à revolução pessoal. A violência do boxe existe para vencer a violência da vida.


*Felipe Viveiros, graduado em Relações Internacionais pela PUC-SP, tem extensão universitária em Comunicação Empresarial pela Universidade da Colúmbia Britânica (Canadá) e é mestre em Relações Internacionais e Organização Internacional pela Universidade de Groningen (Holanda).


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