cultura

JUVENTUDE FANTASMA

Filme senegalês Atlantique conta a história de um amor assombrado. Um retrato da imigração no olhar da mulher africana.


Por FELIPE VIVEIROS*


O cinema de muitos países tem raízes sociais e políticas. O mundo pós-colonial impulsionou novas identidades através de emergentes indústrias cinematográficas que traduzem, pela imagem e pelo som, sua própria trajetória. A história do cinema senegalês começa com a própria declaração de independência da França, em 1960. Três anos depois o “Pai do Cinema Africano”, Ousmane Sembène, roda seu primeiro filme. A chegada desse grande contador de histórias – que é também um dos maiores escritores da África subsaariana – marcou uma virada no continente e inspirou, nas décadas seguintes, talentosas personalidades que alcançaram respeito nas telas do mundo todo. Foi o caso da lenda do cinema senegalês Djibril Diop Mambéty, diretor do sucesso internacional Touki Bouki (1973), famoso em Cannes por deixar legado criativo ao país africano. Morto no final da década de 1990, hoje sua sobrinha, Mati Diop, segue seu legado.


Diop representa um marco para Cannes. Foi a primeira diretora negra a competir na história do festival. Seu filme Atlantique (2019) ganhou o Grand Prix na categoria de Melhor Filme ao transformar folclore senegalês em obra crítica e sobrenatural. O longa não se limitou aos “cinemas cult”, foi rapidamente comprado pela Neflix e selecionado como representante do Senegal para a categoria de Melhor Filme Estrangeiro. A cineasta passou longo tempo analisando a distorção do continente africano em imagens projetadas pelas lentes egocêntricas de Hollywood e do cinema europeu. Diop é consciente de como a África também é despojada em sua própria história e representação. A ousada e criativa senegalesa prova que não é dirigida pelas ideias de seu tio famoso. É diretora de seu próprio sucesso.


Atlantique explora um ponto de vista da mulher sobre a narrativa dos imigrantes africanos. Ada, de apenas 17 anos, interpretada por Mame Bineta Sané, descobre o vazio da vida das mulheres deixadas pelos homens que partem em busca de trabalho na Europa. Moradora do subúrbio, está prometida para se casar com Omar, homem rico que passa grande parte do tempo cuidando de interesses financeiros. A jovem tem outros planos, está apaixonada por Souleiman, trabalhador da construção civil interpretado por Ibrahima Traoré, que ganha a vida suando nos canteiros de obra do altíssimo arranha-céu de luxo que está sendo erguido em Dakar. Uma noite Ada sai de casa para encontrá-lo em um bar na praia. Suleiman nunca aparece. Como todos os outros trabalhadores da construção, o jovem não recebe seu salário há meses e decidiu, com seus colegas, fazer perigosa viagem de 2.000 milhas pelo Oceano Atlântico, do Senegal à Espanha. Parece uma história familiar sobre migrantes e políticas de casamento. Cuidado. Atlantique é diferente dos filmes que você viu ou vai ver.


foto: divulgação


Rumo a vida “do outro lado”, o tratamento da narrativa sobre migração é poético e faz florescer o lado real dos mitos para lidar com questões de gênero, sexualidade e costumes. Sulemain desaparece na viagem e Ada questiona se o verá outra vez. A ironia do filme é grande. A jovem está prestes a ganhar um futuro supostamente melhor dentro de seu país, enquanto o rapaz precisa perder a vida nos frágeis barcos da imigração para poder sonhar. As amigas de Ada bajulam a “liberdade” que ela desfrutará como esposa do prometido homem rico. Enquanto isso, a menina de 17 anos é constrangida a ir ao médico confirmar se ainda é virgem, para então poder casar. O abismo entre o que ela é forçada a aceitar e o que realmente quer é maior, e mais revolto, do que qualquer oceano. Na noite do casamento arranjado, o quarto de núpcias misteriosamente pega fogo e uma de suas amigas tem certeza de que viu o rapaz desaparecido no mar escondido na fumaça. História de um amor assombrado, um retrato complexo da imigração.


A obra dramatiza as distâncias físicas e emocionais que os africanos atravessam e capta o quão onipresentes os entes queridos podem ser. Souleiman assim como a salgada brisa do Oceano Atlântico, está sempre no ar. O filme mescla fantasia e romance, o lamento africano encontra o mistério sobrenatural em sua própria cultura. A trama é uma referência aos djinns da cultura islâmica, espíritos sobrenaturais que possuem formas humanas. Seres invisíveis mencionados no Alcorão, fantasmas que assumem formas, tem poderes e ocupam o corpo – e a mente – das pessoas em momentos de fraqueza. Cerca de 95% da população do Senegal é muçulmana e os djinns da cultura local são chamados de faru rab, “espíritos amantes”. Fantasmas de homens que se apossam do corpo de mulheres à noite, eles comunicam e também punem aqueles que os enganaram. Atlantique conta, pelo folclore senegalês, a história de migração conecta os que morreram no mar com os que ficaram perdidos no tempo e no espaço. O nome Senegal tem suas origens na expressão sunu gaal que significa, em língua nativa, wolof – "nossa canoa". As mulheres senegalesas embarcam, por terra, em canoa que resiste às fortes ondas de perda com o Oceano Atlântico.


foto: divulgação


O filme é um retrato metafórico. Muitos dos jovens senegaleses estão possuídos pela ideia de estar em outro lugar. Mesmo dentro do seu próprio país, já apagaram o Senegal em suas cabeças. São fantasmas muito antes de se converterem em um. A trama é sobre os espaços intermediários entre África e a Europa, entre os que são vivos-mortos e os que são mortos-vivos. Ada reconhece o destino ao qual está fadada e o que espera muitas das mulheres senegalesas. Atlantique retrata uma geração jovens desaparecidos, que se tornaram mar e não deixaram vestígio físico, só as espumas da memória. Na maré alta de nossas emoções, os fantasmas nascem e são criados em nós mesmos, fazem com que as turvas águas do presente levem-nos ao passado. Áreas inteiras de Dakar ficaram desertas devido aos homens que partiram. Essas regiões ainda são habitadas por mulheres que carregam seus espíritos vivos. Uma eterna ressaca, um pranto que abraça, que arrasta para a costa.


O Atlântico dá nome ao filme não só porque banha a cidade de Dakar, mas porque é ele que leva os sonhos do que almejam uma vida fora da península. Atlantique não é um filme sobre refugiados. É uma bela releitura afro da Odisseia de Homero com amantes separados pelo oceano e pelo destino, à luz das praias e dos canteiros de obras de uma Dakar que não para de crescer para o alto. Sobre as mulheres que ficaram para trás, refugiadas em triste saudade. Uma história de fantasmas-vivas, que assombram seus destinos.


*Felipe Viveiros, graduado em Relações Internacionais pela PUC-SP, tem extensão universitária em Comunicação Empresarial pela Universidade da Colúmbia Britânica (Canadá) e é mestre em Relações Internacionais e Organização Internacional pela Universidade de Groningen (Holanda).


  • Facebook
  • Instagram
  • Spotify