IMORAL PARAÍSO

Filme das Bahamas é o primeiro a lidar, de maneira explícita e corajosa, com religião e homofobia no país.


Por FELIPE VIVEIROS*


Cineastas e atores de todo o mundo viajam com frequência para um arquipélago situado a apenas 100 km do Estado da Flórida, nos EUA. O cinema internacional já viu os mais icônicos blockbusters de sua história – desde Casino Royale até Piratas do Caribe – capturarem a beleza de um país paradisíaco conhecido pelo turismo e rum de qualidade. Com uma população de ascendência africana, colonos ingleses e refugiados da Guerra de Independência dos EUA, chegou o momento de entender um território já muitas vezes retratado, mas nunca explorado para além de seus mares turquesa e areias brancas. As Bahamas.


Em outubro de 1492 Cristóvão Colombo, em sua primeira viagem ao “Novo Mundo”, desembarcou nas ilhas. Foi surpreendido. O “Novo Mundo” era mais antigo do que ele imaginava. Os nativos das Bahamas, indígenas taínoslucayos, já estavam no arquipélago há mais de 600 anos. Em três décadas de presença, os europeus destruíram seis séculos de História. O povo originário foi eliminado e o território – que não despertou interesse do Governo Espanhol – foi dominado pela Grã-Bretanha. O país conquistou independência em 1973 e, hoje, o inglês é a língua nativa dos bahamianos. O idioma oficial não foi a única influência que permaneceu.


Desde a colonização britânica, a maioria da população local é adepta de diversas ramificações protestantes como Igrejas Baptistas, Evangélicas, Pentecostais, Adventistas e Metodistas. Embora a constituição das Bahamas garanta liberdade de religião e proíba discriminação com base na crença, o discurso é outro. A sociedade é estruturada em forte herança de fé e exige que o governo respeite os valores cristãos. Seria isso um problema? Depende do conceito de cidadão que as Bahamas têm. A Constituição oferece liberdades civis, mas os estatutos anti-discriminação não incluem orientação sexual ou identidade de gênero. Todos os esforços nesse sentido têm sido bloqueados por motivos religiosos. O país é laico desde que de acordo com as denominações cristãs. No epicentro do debate sobre a homossexualidade nas Bahamas está a Igreja, como mostra o filme Children of God (2010).


foto: divulgação


Escrito e dirigido pelo cineasta bahamiano Kareem Mortimer, a produção é a primeira a lidar, de maneira explícita, com religião e homofobia no país. O filme teve sua estreia no Festival Internacional de Cinema de Miami (EUA) e passou por mais de 100 festivais ao redor do mundo. A trama desenvolve-se a partir de quatro personagens: os jovens Johnny e Romeo, o pastor Ralph e a esposa Lena. Johnny é estudante de Arte na capital Nassau e embarca em jornada para romper um bloqueio criativo. Ele viaja para a paradisíaca ilha de Eleuthera, onde espera encontrar inspiração. No barco conhece Romeo, um músico, e Lena, a esposa de um pastor conservador rumo a mesma ilha para, em um comício, inflamar a população por medidas anti-gay mais rígidas do governo. Com base em diferentes pontos de vista, a obra descortina como as Bahamas – influenciadas por suas tradições religiosas – forçam seus cidadãos gays a “entrarem e permanecerem no armário”.


Romeo mostra a Johnny os pontos cênicos da ilha. Os jovens apaixonam-se e embarcam em uma série de aventuras físicas e emocionais que não só inspiram o artista a pintar, mas também trazem um novo gosto pela vida. O contexto é delicado. Romeo tem namorada e é visto pela família como heterossexual. O enredo do filme é conduzido através das três histórias e o pano de fundo são os debates públicos sobre homossexualidade retratados através de programas de rádio, sermões e reuniões públicas nas Bahamas. O filme detalha a interiorização da homofobia e os dolorosos segredos da população gay dentro de um contexto cristão conservador. Uma ironia. Enquanto Lena promove uma campanha anti-gay pela igreja, é o pastor e marido Ralph quem está envolvido em um caso secreto com um rapaz da região.


Lena é uma (des)ativista. Acredita que a única maneira de resolver os problemas das ilhas é pela limitação dos direitos dos homossexuais. Quais direitos? Casamentos entre pessoas do mesmo sexo e uniões civis não são legais nas Bahamas. A "Lei do Casamento” afirma que um matrimônio é composto apenas por um homem e uma mulher. A homossexualidade é legal, mas a homofobia é generalizada. Não existe lei sobre crimes de ódio, violência ou assédio contra pessoas LGBT. Filmes com “temáticas gays”, como o norte-americano Brokeback Mountain (2006), foram proibidos do país pelo Conselho de Controle de Filmes por “ferir a moral cristã.”


foto: divulgação


A comunidade LGBT nas Bahamas existe. Ela só é invisível aos que preferem enxergar na luz, a escuridão. Vivendo de maneira discreta, a maioria dos gays tem medo de permitir vidas abertas. Não surpreende. Em 2015, uma pesquisa publicada no Nassau Guardian – o maior jornal do país – relata que 85,5% dos entrevistados desaprovam o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Bahamianos aderem a denominações cristãs e promovem a crença de que a homossexualidade é sinal de decadência. Como resultado da falta de confiança no sistema judiciário, desigualdades legais e homofobia no país, a comunidade LGBT, sem opção, segue discreta por falta de aceitação.


Children of God faz com que os bahamianos sejam expostos a uma nova retórica e percebam que o decadente não é a homossexualidade, mas seu repúdio a ela. As Bahamas são um microcosmo para o que acontece no mundo maior do Caribe. Conhecido por seu povo simpático e generoso, a influência dos grupos religiosos e o discurso anti-gay são o contrapeso na dura leveza das ilhas. Children of God faz história. O Conselho de Controle de Filmes das Bahamas tentou impedir a exibição do filme na praça pública do centro de Nassau. O governo revogou e permitiu que o filme fosse exibido.


A frase “filhos de Deus" é a expressão usada pelos cristãos para se referir à divindade humana. O pensamento da sociedade bahamiana persiste entre aqueles que reivindicam a inexistência da existência e os que a abraçam. O conservadorismo religioso não torna uma sociedade heterossexual. É o medo que leva muitos a atuarem como heterossexuais. Quando um cidadão torna-se imoral, obriga os membros da sociedade à uma única escolha: o lado da moralidade. Children of God vai além dos mares turquesas e areias brancas das Bahamas. Nas ondas da vida, é uma quebra de paradigma para os que imaginam o país como um paraíso. A vida não é fácil para “os filhos de Deus” que o habitam.


*Felipe Viveiros, graduado em Relações Internacionais pela PUC-SP, tem extensão universitária em Comunicação Empresarial pela Universidade da Colúmbia Britânica (Canadá) e é mestre em Relações Internacionais e Organização Internacional pela Universidade de Groningen (Holanda).


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