ENTRE O SONHO E A REALIDADE

Filme neozelandês "Boy" discute os desprazeres prematuros da vida adulta e o impacto da cultura pop global na realidade do povo maori.


Por FELIPE VIVEIROS*


A Oceania sempre despertou interesse. Proposta de vida para os europeus há 230 anos, o continente segue sendo novidade e encantando os amantes das paisagens naturais e da fauna única da região. Com populações únicas no planeta de cangurus, coalas, vombates e ornitorrincos o lugar tem atraído muitos visitantes também pelas maiores barreiras de corais do mundo, esportes radicais como o surfe e o bungee jumping, pelo sucesso das equipes de rúgbi e, até mesmo, pelo set de filmagem do gigante de bilheteria “Senhor dos Anéis", preservado para visitação em Waikato, na Nova Zelândia.


Formada por cerca de 10.000 ilhas espalhadas pelo Pacífico, a Oceania é o menor continente da Terra. Embora o tamanho, suas ilhas são como estrelas dispersas no céu, cada uma com seu brilho e história. Seus países compõem alta diversidade linguística e cultural onde mais de 5.000 idiomas são usados para narrar as crônicas da região. Sim, são 10.000 ilhas e 5.000 idiomas no menor continente do mundo.


Para entender um pouco da vida maori, o filme Boy (2010) é um aceno para além das tradições tribais e aborda, com momentos de fantasia, uma comunidade à deriva na década de 1980. Taika Waititi, escritor e diretor do filme, fez questão de gravar no local onde ele mesmo colecionou as memórias de infância, a Baía de Waihau. O lançamento na Nova Zelândia liderou as receitas de bilheterias da semana, faturando mais na estreia do que qualquer filme no país. Boy foi premiado pelo Festival Internacional de Cinema de Berlim (Deutsches Kinderhilfswerk Grand Prix) como Melhor Longa Metragem.


foto: divulgação


Lar de 14 nações independentes e diversos territórios ultramarinos, a Oceania não possui fronteiras terrestres, mas se conecta pelas pontes culturais que ligam a história e a origem dos povos que ainda compõem a parte majoritária das populações das nações oceânicas. Os melanésios, micronésios, papuas, aborígenes e polinésios — como os maori — enriquecem as esferas étnicas da sociedade no mundo, com representações na música, política, esportes, artes e cinema.


Boy, como é chamado o protagonista, divide a casa em que vive com seu irmão mais novo e vários primos. A avó, com quem compartilhava solidão, os deixa desacompanhados enquanto comparece à cerimônia de um funeral em Wellington, DC. O menino, na inocência dos seus 11 anos, se encarrega da casa e das crianças até que, de maneira repentina, é surpreendido por um carro em uma nuvem de poeira – que surge ao melhor estilo Easy Rider. O veículo, sujo e deteriorado, tem ao volante um misterioso motorista: Alamein, pai de Boy, interpretado pelo próprio diretor Waititi. O homem, que esteve ausente por haver cumprido pena na prisão, retorna à casa, à princípio, para reencontrar os filhos depois de tanto tempo.


Líder de uma suposta gangue de motociclistas conhecida como os Crazy Horses, Alamein oferece cerveja ao filho em determinados momentos da trama e o incita a colher maconha em fazendas da região. É irresponsável, mas não cruel. Demonstra preocupação em cortar o cabelo do menino para que se pareça o ídolo Michael Jackson, e o ajuda a se vingar dos valentões que atormentavam sua vida escolar.


Na verdade, o seu reaparecimento, não por saudade ou amor paternal, é devido à busca de uma parcela do dinheiro que havia enterrado na fazenda, antes de ser preso. Com as rugas do tempo, embora com topete, costeletas e jaqueta de couro, Alamein não se lembra das coordenadas do exato esconderijo. Boy oferece ajuda para encontrar o "tesouro". O pai faz com que o filho passe horas e horas cavando incontáveis buracos não só em busca do dinheiro, mas à procura do tempo perdido enterrado em algum lugar. Sem sucesso, Alamein vai embora e, mais uma vez, abandona Boy.


A responsabilidade pesa sob ombros do jovem maori: de um lado a presença marcante da ausência do pai e de outro a morte da mãe, no parto de seu irmão mais novo. Na tentativa de ainda viver uma infância com uma figura paterna, Boy inventa histórias fantásticas sobre sua vida para impressionar amigos e meninas da escola e, de maneira frequente, imagina o pai como um ídolo pop. O garoto é obrigado a se responsabilizar pela sua própria criação e, de modo prematuro, a conhecer os desprazeres da vida adulta. Pouco a pouco, Boy percebe que a distância que separa o pai de ser Michael Jackson é tão grande quanto a distância que separa Nova Zelândia do país do astro americano.


foto: divulgação


Taika Waititi, escritor e diretor do filme, recebeu seis indicações ao Oscar de 2020 com a produção de Jojo Rabbit, conquistando a estatueta pelo Melhor Roteiro Adaptado. Além de escrever a dirigir o filme premiado, o cineasta e ator neozelandês de descendência maori — e judia — interpretou de modo irônico, Adolf Hitler, amigo imaginário de Jojo.


Dos quase cinco milhões de habitantes da Nova Zelândia, nos dias de hoje, mais de 770.000 se identificam como maori, são 15% da população do país. Os maori são descendentes dos povos do leste da Polinésia que chegaram a Nova Zelândia em wakas (canoas) fazendo o uso das correntes do mar, ventos e estrelas – sua ciência náutica, como também sua mitologia. Depois de séculos de isolamento no território, desenvolveram cultura própria, com idioma, referências mitológicas e arte diferentes da civilização que lhes deu origem. Quando a Nova Zelândia foi ocupada pela Inglaterra, em 1840, as ilhas eram habitadas por um povo que havia criado raízes há 700 anos. O "Novíssimo Mundo" não era tão novo assim.


Em Boy o impacto da cultura pop global na realidade e no imaginário dos maori é discutido ao ritmo de uma trilha sonora local, que conta com artistas neozelandeses. Ao som das bandas The Phoenix Foundation, Patea Maori Club, Prince Tui Teka e Herbs, de maneira lúdica e colorida, o enredo entrelaça nosso eu adulto e infantil em uma experiência agridoce de descoberta de um “pai-ídolo”, mas que, a rigor, só tem qualidades admiráveis na imaginação de um filho abandonado ao próprio destino.


*Felipe Viveiros, graduado em Relações Internacionais pela PUC-SP, tem extensão universitária em Comunicação Empresarial pela Universidade da Colúmbia Britânica (Canadá) e é mestre em Relações Internacionais e Organização Internacional pela Universidade de Groningen (Holanda).



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