DISTANTE AQUI BEM PERTO

Músico George Telek, da Papua Nova Guiné, revela que a distância cultural só acontece com os que se isolam por conta própria.


Por FELIPE VIVEIROS*


A segunda maior ilha do mundo – depois da Groenlândia – é um país independente que, se não desconhecido, é considerado “remoto” por muitos. A distância cultural só acontece aos que se isolam por conta própria. Criadores de muros e bolhas sociais impenetráveis, os “remotos” somos nós.


É o momento de conhecer o lar da terceira maior floresta do Planeta Terra – depois da Amazônia e do Congo – com população de sete milhões de pessoas e mais de 7000 grupos culturais diferentes. Nação onde cada comunidade tem língua própria, assim como formas distintas de expressão, dança e música. Seja bem-vindo a um caleidoscópio de diversidade fora do seu radar e (re)conheça, com a música de George Talek, um estilo de vida que se manteve autêntico por mais de 40.000 anos: Papua Nova Guiné.


Reza a lenda... Quando George Telek era criança mastigou uma noz sagrada que abriu sonhos às histórias de seus antepassados, criando uma ponte eterna de inspiração para suas canções. Nascido em 1959 na vila de Barovon, na província da Nova Bretanha, Telek é um dos poucos cantores da Papua Nova Guiné a conquistar reconhecimento internacional. Exótico? Jamais. Suas composições retratam a vida diária de seu povo, melodias que os nativos cantam e encantam enquanto pescam ou fazem as colheitas dos cocos. Pertencente ao povo Tolai, o cantor leva seu cancioneiro poético para além dos mares que separam a cultura nativa do mundo moderno. Um divisor de águas para um equívoco da humanidade. O mundo moderno é – e sempre foi – pura cultura nativa.


foto: divulgação


Com canções líricas que combinam o encanto mágico midal e a magia do amor malira a uma sensibilidadepop contemporânea, escutar George Telek é estar em uma Abbey Road de aldeia, onde os Beatles atravessam para a vila de Raluana. A sonoridade de Telek é acústica, sustentada por tambores ancestrais como o kundu, uma espécie de ampulheta e o garamut, tronco maciço com uma fenda. Embora o idioma mais falado do país seja o crioulo inglês Tok Pisin, Telek canta em sua língua nativa na maior parte de suas canções, o que revela determinação em expressar a identidade na diversidade de Papua Nova Guiné. Ao se comunicar em uma língua falada apenas por 60.000 pessoas, a sinceridade ultrapassa a necessidade de ser compreendido verbalmente. A emoção e o sentimento comunicam. As harmonias são como uma “serpente vocal” com uma linha mestra, segunda e terceira harmonia, elemento típico do povo Tolai. O serpentear da voz envolve você na ecologia acústica da terceira maior floresta do mundo. A biodiversidade floresce na música.


Telek começou a cantar no final dos anos 1970 com várias bandas acústicas de guitarras e cavaquinhos. Após um breve período na capital Port Moresby, juntou-se à banda Revival Unbelievers e começou a escrever suas próprias faixas, como Talaigu, que continua sendo um clássico papuásio até hoje. O estrelado oceânico chegou com seu grupo de rock Painim Wok – que em português significa "procurar trabalho" – no qual foi o vocalista principal. A indústria fonográfica em Papua Nova Guiné não existia até 1977, quando a National Broadcasting Corporation começou a lançar os primeiros cassetes de talentos locais. Em 1983, Painim Wok se tornou a banda a maior banda de rock da Papua Nova Guiné. O conjunto teve três músicas nos TOP 10 do país, lançando oito álbuns nos anos 1980. George Telek passou, então, a lançar álbuns solo.


O músico é pioneiro no país, responsável por uma cena local em constante expansão. As canções de Telek atravessam muitos estilos musicais capturando o espírito da herança cultural do povo Tolai. Bandas tradicionais e de rock começaram a ter sucesso em toda Papua Nova Guiné e o mundo se interessava por ouvir o som da grande ilha. O caleidoscópio de diversidade girava, assim como as cabeças que escutavam pela primeira vez a serpenteante voz papuásia do continente. Ficaram hipnotizados.


foto: divulgação


O alcance aumentava e o caráter transnacional do nativismo também. Se o mundo moderno é pura cultura nativa, Telek fez questão de trabalhar com artistas aborígines australianos como Archie Roach e Kev Carmody. Ambos, anos mais tarde, apareceram em seu primeiro álbum solo a ser lançado fora de Papua Nova Guiné, o icônico Telek (1997) da gravadora australiana Origin. O álbum é como um sucesso indie da rádio nos anos 1990, com violão acústico e refrãos que cantam uma história que é de todos nós. Sentimo-nos melanésios. A combinação de temas papuas com música pop ocidental rompeu barreiras e o disco ganhou um ARIA – o equivalente australiano dos Grammys – na categoria Melhor Álbum de World Music. A revista de música Rolling Stone o consagrou como "um dos melhores lançamentos do ano". O som atravessava fronteiras e o mundo finalmente escutava o mundo.


Não é surpresa que George Telek seja o músico de Papua Nova Guiné mais aclamado no cenário internacional. Ele é a cena, seu cenário e figurino. Ele é o roteirista da história cultural de seu próprio país. Telek é a vanguarda da música do Pacífico, nos últimos 40 anos. O músico mostra como a tradição do povo Tolai é forte e contemporânea. A vida diária de seu povo é importante. É a vida do mundo. Para isso, o cantor tem usado seu status de celebridade diplomata na Oceania para apoiar campanhas na mídia em favor da liberdade de imprensa, saúde e saneamento e justiça para Papua Ocidental. Canções como Akave retratam a inaceitável devastação das florestas tropicais de Papua Nova Guiné. É possível ser firme sem perder a beleza hipnotizante das suaves melodias.


Escutar Telek é entender a perspectiva dos povos Tolai que habitam as terras de nosso Planeta. São seus decretos espirituais que governam as relações com a terra, os recursos e as pessoas, os ancestrais e os que remanescem. A música é essencial para a vida, para cerimônia e história de um povo. Gerações de músicos oceânicos trazem ao nosso reconhecimento as paisagens sonoras contemporâneas de um mundo antigo. Ouvir a Papua Nova Guiné é mastigar uma noz sagrada que abre nossos sonhos às histórias dos antepassados papuásios. Já não nos isolamos do mundo, mas do próprio isolamento de nosso egocentrismo cultural. Não é possível ser remoto quando o som é uma ponte.


*Felipe Viveiros, graduado em Relações Internacionais pela PUC-SP, tem extensão universitária em Comunicação Empresarial pela Universidade da Colúmbia Britânica (Canadá) e é mestre em Relações Internacionais e Organização Internacional pela Universidade de Groningen (Holanda).


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