COMER POLÍTICA

Filme grego revela que política de Estado não apaga sabores. Uma lição gastronômica dos conflitos greco-turcos do século 20.


Por FELIPE VIVEIROS*


“Canela... doce e amarga como Vênus.

Pimenta... picante e ardida como Sol.

Sal... utilizado para dar mais sabor à vida.”


As fronteiras de um país não são apenas criadas para dividir um único mundo em diversos mundos. São desenhadas por um linguagem que conecta a ideia de território à lembranças educacionais, culturais e literárias. A arquitetura, a moda, a arte, os livros, a música e o cinema criam e recriam memórias, noções de pertencimento e nacionalidade. O mesmo acontece com o gosto dos temperos usados na gastronomia, que nos remetem a um momento de nossas vidas, despertam legítima identidade. A cozinha de um país não é apenas entretenimento. O tipo de tempero e a técnica usada para cozinhar são atos políticos. É isso que define o que você faz, e o que “os outros” não fazem. A explosão de sabores pode ser nossa pátria, é um aroma que nos tira do mundo e nos traz de volta à casa. Tudo isso está no filme grego: “O Tempero da Vida”.


Do diretor Tassos Boulmetis o longa tem a estrutura de uma refeição completa: “Aperitivo”, “Prato Principal” e “Sobremesa”. Os dois primeiros pratos têm o sabor agridoce de uma história de deslocamento cultural. O terceiro e último diverge, abraçando as doces liberdades do que é íntimo. O Tempero da Vida mostra que a gastronomia é o elemento fundamental das relações políticas entre países. Um ato de diplomacia culinária. Selecionado para representar a Grécia na categoria de Melhor Filme de Língua Estrangeira no Oscar, em 2005, a produção é o maior sucesso de bilheteria de todos os tempos no país helênico. E não surpreende o porquê. A evocação das especiarias e de como elas proporcionam uma lição de história sobre os conflitos greco-turcos do final do século 20, contém passagens deliciosas.


O Tempero da Vida é autobiográfico. É a história do diretor Tassos Boulmetis nos olhos do personagem Fanis Iakovidis. No enclave étnico grego de Constantinopla (antiga Istambul) nos anos 1950, o “Aperitivo”, mostra um jovem menino em uma cidade multicultural onde gregos e turcos vivem e cozinham lado a lado. O avô de Fanis, Sr. Vassilis, é proprietário de uma loja de especiarias. O garoto descobre, com o experiente tutor, como é fácil entender, da astronomia ao sexo, através dos temperos. O menino cresce em uma família ortodoxa grega e é fascinado por uma menina turca, Saime, que está disposta a dançar para ele em troca de dicas de culinária. A câmera mostra uma Constantinopla idealizada, romântica, que atravessa a linha do horizonte cortada pelos minaretes das mesquitas. A política amarga sua vida. Em 1964 a Turquia expulsa os cidadãos gregos do país. Fanis parte com os pais para Atenas, mas o avô – cidadão turco – é deixado para trás.


foto: divulgação


Durante as décadas de 1950 e 1960, a minoria grega foi utilizada como um aparato de pressão para a disputa de Chipre. Medidas anti-gregas de 1964-1965 resultaram numa redução drástica do número de gregos em Istambul, e mais de 50.000 foram expulsos da cidade. A discriminação institucionalizada resultou na apropriação, pelo Estado turco, de imóveis das minorias acompanhadas de restrições na religião e na educação. A expulsão dos gregos fez parte da fase final das medidas estatais destinadas ao processo de “turquização” da vida econômica, social e cultural.


No “Prato Principal”, de volta à Grécia, a família de Fanis sofre uma ironia. Os turcos os mandam embora por serem gregos. Os gregos os recebem como turcos. Não foram aceitos, sentiram-se como corpos estranhos. A esperança de um reencontro prevalece. Fanis adquire de seu avô o hábito de esfregar os cartões postais enviados e recebidos em especiarias, associando um gosto específico com um lugar específico. O filme deixa claro as relações entre vida emocional e política. São uma só. O vínculo indestrutível que une a família grega e seus vizinhos de etnia turca é um apego constante à culinária de Istambul.


O roteiro é perspicaz e está repleto de momentos familiares, temperados com observações da importância das especiarias na provocação de guerras. O diretor Tassos Boulmetis não voltava a Istambul desde 1964, quando ele a família foram expulsos. Retornou 30 anos depois, em 1994, para ver como estava a cidade. Durante a viagem, começou a escrever o roteiro do filme com o título grego Πολίτικη Κουζίνα (Politiki Kouzina). Um jogo de palavras, que significa "Cozinha Política", mas também "Cozinha da Polis" – como em Constantinópolis, o nome original grego para Istambul. Gregos de Istambul, não puderam escolher a hora de sua chegada a Atenas. Levaram consigo todas as tradições e receitas de seu país. À mesa, o tempero tem a capacidade de transformar.


fotos: divulgação


A cozinha de Istambul é, de maneira inevitável, fusion. Os temperos são influência de todas as culturas que existiam antes da “turquização”. Políticas de Estado não apagam gostos, cheiros, sensações. As especiarias árabe, balcânica, bizantina, otomana e grega continuam, mesmo hoje, revelando o status histórico de Istambul como antiga “Capital do Mundo”. A gastronomia revela a importância de manter a herança cultural. Mais do que linhas imaginárias o que separa os gregos dos turcos é o fato de colocar ou não canela nas almôndegas.


A “sobremesa” é situada nos dias atuais. Fanis, já adulto, se torna um professor de astrofísica e dá aulas fazendo uso de especiarias. “A palavra gastrônomo contém a palavra astrônomo. As especiarias são como planetas em órbita”, dizia seu avô. O tempero, assim como a lei da gravidade é poderoso, mas invisível. É testado na medida em que eventos políticos separam as pessoas. O filme situa o peso da comida em contextos precisos de desdobramento da História. O tumulto político regional, a deportação de cidadãos gregos da Turquia (em razão das tensões políticas no Chipre), a recepção xenofóbica na Grécia aos gregos exilados de Istambul, a junta militar grega de 1964 e os conflitos étnicos relacionados entre cipriotas gregos e cipriotas turcos que levaram à divisão do Chipre, em 1964.


Enquanto a imagem amarga de uma Europa dividida se desvaneceu de maneira recente no imaginário popular, as relações conturbadas entre Grécia e Turquia, permanecem. Muitos cozinheiros ainda podem abusar do uso da canela, subestimar a ardência da pimenta e passar o ponto do sal. O filme é um sucesso porque aborda, de maneira lúdica, temas políticos que seriam difíceis de digerir.


O Tempero da Vida mostra a dureza das deportações, mas também a possibilidade de amor entre gregos e turcos. Cada sorriso dos personagens é acompanhado de culinária turca e servido por seus “embaixadores” gregos, sugerindo uma mensagem de paz entre as duas nações. Os saborosos valores dessa produção são um prato essencial no menu do cinema grego. A gastronomia é o caminho para romper barreiras, criar vínculos, descontruir preconceitos e despertar empatia. Não fazemos política, comemos política. São os temperos – e não as fronteiras – que conectam e dividem o ser humano.


*Felipe Viveiros, graduado em Relações Internacionais pela PUC-SP, tem extensão universitária em Comunicação Empresarial pela Universidade da Colúmbia Britânica (Canadá) e é mestre em Relações Internacionais e Organização Internacional pela Universidade de Groningen (Holanda).


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