C.R.A.Z.Y.

Do preconceito ao respeito em um filme emocionante e divertido. A evolução política e social do Canadá.


Por FELIPE VIVEIROS*


País bilíngue e cosmopolita, sob monarquia constitucional e democracia parlamentar, o Canadá é um dos grandes exemplos de desenvolvimento no mundo. Inúmeras e constantes correntes imigratórias, desde refugiados políticos, passando por profissionais especializados até dependentes econômicos, percorrem o planeta para chegar a uma terra gelada, mas de calorosa liberdade, ideologia igualitária e ênfase na justiça social.


O Canadá aceita grande número de refugiados e apoia o pluralismo religioso, que inclusive, é parte da política nacional. Uma das nações com direitos LGBT mais avançados no mundo, suas metrópoles têm respeito à diversidade. Qualquer pessoa pode ter destaque na vida social, porque as diferentes comunidades são organizadas e fortes.


No ano de 2020, mais de 90% dos entrevistados de sondagem encomendada pelo Secretariado do Gabinete Federal do Canadá — o Privy Council Office — , declararam que estariam "confortáveis" caso seus vizinhos fossem gays. O próprio Primeiro Ministro canadense, Justin Trudeau, foi um dos primeiros líderes mundiais a participar de uma Parada LGBT. Integrou o evento na cidade de Toronto, em 2016, ao lado da então Premier da província de Ontário, Kathleen Wynne, primeira mulher gay a assumir o cargo no País.


Entretanto, a vida no Canadá nem sempre foi assim. Nos anos 1950 e 1960 foi criado e utilizado um dispositivo para a remoção dos cidadãos gays do serviço civil, da Polícia Real — a Royal Canadian Mounted Police — e do exército. O aparelho, conhecido como "Máquina de Frutas", foi colocado em prática para identificar homens gays (chamados pelo termo pejorativo de "fruta") de maneira "técnica e científica". As pessoas submetidas ao teste sentavam-se em uma cadeira semelhante à de um dentista e, como em cena perturbadora do filme "Laranja Mecânica" (Stanley Kubrick), eram expostas à pornografia. As fotos variavam no conteúdo sexual explícito de homens e mulheres, e a certeza das positivas repostas eróticas era aferida pela dilatação das pupilas, transpiração e pulso dos “examinados”.


foto: wrik mead/cfmdc


A "Máquina de Frutas" canadense é um triste exemplo do limites legais do poder que a homofobia pode atingir. E o alcance é grande. A Polícia Real Canadense coletou arquivos sobre mais de 9.000 "suspeitos" de homossexualidade, e boa parte dos trabalhadores perdeu o emprego. O mais sombrio, não era ficção científica. As pessoas, em um momento inicial, foram levadas a acreditar que o propósito do dispositivo estava em classificar "níveis de stress". O financiamento para o projeto foi cortado no final da década de 1960 e a descriminalização dos atos homossexuais aprovada em 1969. Nesse mesmo ano, o levante contra a perseguição policial às pessoas LGBT aconteceu em Nova York (EUA), e resultou, no ano seguinte, no que viria a ser a Parada do Orgulho LGBT, hoje realizada em todo o mundo.


O filme C.R.A.Z.Y. (2005) retreta o desenvolvimento e mudança da sociedade canadense nos anos 1960, 1970 e 1980. O longa revela o estilo de vida e a mentalidade de uma família de classe média em Montréal. Gervais, pai prepotente, e Laurianne, mãe religiosa, têm Zach, segundo filho mais novo de uma família de cinco rapazes. Em plena crise de identidade sexual, o menino Zach reprime-se e sofre para não “decepcionar” a família, tem seu comportamento impelido pelas estruturas impostas no pensamento da sociedade. Nascido no mesmo dia que Jesus Cristo, 25 de dezembro, a mãe acredita que o filho está destinado à grandeza e que tem poderes mágicos de cura. E realmente tem. O dom da cura de Zach é usado para sua própria libertação.


O filme aborda o tema em um arranjo perspicaz de humor e drama. É divertido ao mesmo tempo que reflete uma experiência autêntica da vida real no Canadá das décadas de 1960, 1970 e 1980. Crescemos e amadurecemos com o personagem, em um história desenvolvida ao longo de 21 anos. Mas, que passa bem rápido pela qualidade do roteiro.


C.R.A.Z.Y. retrata o choque pessoal e político de um país em transformação, e desenvolve questões como a relação entre pai e filho, sexualidade e tolerância. Fica evidente que o assunto pessoal é de caráter político, e que o assunto político também é de caráter pessoal. O anseio por mudanças de comportamento, pelo aceitação do corpo e orientação sexual escapam dos padrões aceitos e levam as relações entre os membros da família a um limite extremo. O filme mostra que um conflito entre um menino gay e um pai conservador não é um obstáculo íntimo, mas sim um impasse social.


foto: divulgação


Ainda criança, Zach e seu pai compartilham cumplicidade "de homem para homem". Quando o jovem canadense revela um lado supostamente não masculino, uma guerra é declarada. Seu pai não aceita o seu lado sensível, as suas roupas, os seus gostos diferenciados, as suas maquiagens e camisas com decotes. O roteiro de C.R.A.Z.Y. é inteligente e prende o espectador. O diretor Jean-Marc Vallée — mesmo diretor dos sucessos de bilheteria "Clube de Compras de Dallas" e "Livre" — traduz a história das liberdades civis e libertação sexual na trilha sonora do filme, permeada de sucessos de Pink Floyd, Rolling Stones e David Bowie. Esse último, o maior ídolo do protagonista. A música interfere no comportamento e nas preferências das gerações, que por sua vez, interferem na música. A sonoridade, a moda, o estilo são grandes meios de comunicação e traduzem o que pensa o mundo.


A produção teve grande alcance popular, e é uma das maiores bilheterias na história do Canadá francófono. O filme ganhou 11 prêmios Genie Awards (o equivalente canadense ao Oscar), incluindo o de Melhor Filme. Em 2015, C.R.A.Z.Y. foi eleito pelos críticos do Festival Internacional de Cinema de Toronto como um dos 10 melhores filmes canadenses de todos os tempos.


Zach quer recuperar o amor do pai, que um dia foi seu companheiro. Gervais tem grande dificuldade em aceitar a orientação sexual do filho, visto que seus quatro meninos foram criados para ser "machos". Uma representação realista do choque de cultura e ideologia na Québec dos anos 1960-1980, e muito familiar em diversas sociedades do mundo... nos dias atuais.


C.R.A.Z.Y. provoca uma reflexão sobre os alicerces dos anos 1960 e 1970, em grande parte voltados para o entendimento da família convencional e do casamento. O filme aborda a dúvida sobre si mesmo e a contracultura da época, marcada por profundas revoluções culturais que continuaram fazendo história nas décadas seguintes.


A obra é uma proposta para entender que se a sociedade do Canadá é exemplo dos direitos LGBT hoje no mundo, é porque aprendeu com as rupturas culturais e comportamentais que aconteceram ao longo dos anos. Embora tenhamos avançado como sociedade, a produção canadense é um aviso para que as "Máquinas de Frutas" que seguem assombrando relações familiares não tenham espaço em um mundo que se libertou, mas que para muitos ainda continua suspeito de ser C.R.A.Z.Y.


*Felipe Viveiros, graduado em Relações Internacionais pela PUC-SP, tem extensão universitária em Comunicação Empresarial pela Universidade da Colúmbia Britânica (Canadá) e é mestre em Relações Internacionais e Organização Internacional pela Universidade de Groningen (Holanda).


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