AS FILHAS DO SOL

Duo da Guiné Equatorial ilumina a História e faz a Espanha lembrar suas conexões com a África.


Por FELIPE VIVEIROS*


Uma ex-colônia esquecida. Apesar da relação histórica de mais de 400 anos com a Espanha, pouco se sabe sobre esse país. Em nossos imaginários geográficos, o colonialismo espanhol é mapeado apenas nas Américas. Os mais estudiosos – e talvez orgulhosos de sua sabedoria – mencionariam também as Filipinas. A verdade é que a última colônia espanhola a reivindicar a independência não era americana, muito menos asiática. Chegou o momento de (re)descobrir o mundo e conhecer um Estado-nação que pensa, compõe e canta em espanhol: a Guiné Equatorial.


Embora falem o mesmo idioma, quase nenhum “ibérico contemporâneo” se lembra o quão profundo é o vínculo de seu país com a Guiné. De fato, até pouco tempo, as referências sobre conexões da Espanha com a África eram escassas ou, até mesmo, ausentes em memoriais públicos, livros didáticos e instituições de cultura na Península Ibérica. A migração da África para a Europa tem mudado esse cenário e, de maneira gradual, criado maior consciência nos dois continentes. Muitos despertaram tarde para a História desse passado colonial. O amanhã não espera. É isso que traz o duo guinéu-equatoriano Las Hijas del Sol.


Formado por Piruchi Apo Botupá e sua sobrinha Paloma Loribo Apo – conhecida como Paloma del Sol – o conjunto é folk, jazz e flamenco em diálogo com o mundo. A sonoridade da dupla revela como os guinéu-equatorianos são frutos do multiculturalismo. Durante as últimas décadas, diversos músicos da Guiné Equatorial se estabeleceram na Espanha e não apenas promoveram a música guinéu-equatoriana no país ibérico, como também influenciaram a produção de música popular em seu país de origem. A África transborda sabedoria nas discussões sobre nacionalidade, etnia e conexões globais. Originárias da Ilha de Bioko, Las Hijas del Sol iluminaram o cenário internacional ao cantar as tradições de seu povo e os problemas enfrentados pelos imigrantes guinéu-equatorianos na Espanha. A Europa tem muito o que aprender escutando músicas tanto em língua bubi, quanto em espanhol.


foto: divulgação


A composição étnica da população da Guiné Equatorial é complexa para um país pequeno em território. O povo Fang é dominante na região continental, enquanto os habitantes originais da Ilha de Bioko são os Bubi. O grupo étnico insular se estabeleceu em Bioko há cerca de 10.000 anos. Os europeus – com alguns milênios de atraso – chegaram em 1472. Os bubi, ao contrário das demais etnias do país, são uma sociedade matrilinear com um sistema de crenças no qual é “a Mãe de Deus”, Bisila, quem ocupa um lugar de honra. Na música de Las Hijas del Sol os princípios sociais e religiosos se manifestam em canções dedicadas às deusas, ao poder das mulheres e ao trabalho feminino na vida contemporânea. A feminilidade africana canta... E voa alto.


O álbum de estreia Sibèba (1995) é dedicado a todos aqueles que empreendem esforços para defender modos de vida tradicionais, e lutam contra as barbaridades de uma “modernidade mal compreendida”. O passado é moderno. O disco oferece uma compilação de canções com lendas que pertencem à cultura Bubi, tais como Boto I, canção para o rito de fertilidade; Rea que lida com a lua e irmandade; e O wato wa baye que versa sobre Bisila, a deusa-mãe do povo Bubi. Durante o período colonial, o povo Bubi foi o grupo étnico que sofreu a mais forte aculturação espanhola. Tal erosão continuou após a independência, em 1968, quando o Presidente Francisco Nguema – de etnia Fang – assumiu o controle do governo. A política de Estado nguemista impôs um discurso falsificado da História do país, priorizando os pontos de vista Fang e eliminando as perspectivas Bubi. Efetiva mutilação cultural. Depois de muitos anos de imposição espanhola e fang, a diversidade que distingue os Bubi dos outros guinéu-equatorianos é representada e recriada através de uma arma ardente da resistência: Las Hijas del Sol.


A dupla é, de longe, a mais popular e bem-sucedida do país. No início dos anos 2000, as integrantes assinaram um contrato com a Zomba Records, gravadora que havia produzido discos para artistas pop do mais alto escalão como Britney Spears e The Backstreet Boys. Las Hijas del Sol se tornaram um nome na Espanha e passaram a ser incluídas com frequência no World Music Charts Europe. O sucesso ¡Ay! Corazón, do álbum Pasaporte Mundial (2001) alcançou a posição número 1 dos TOP 40 na Espanha. “A popularidade afastou as africanas de sua música tradicional!”, pensariam os puristas da música. Jamais. A África é sábia. Embora uma presença crescente de africanos nas ruas espanholas, sua representação na mídia é mínima. O estrelato permitiu ao grupo alcançar shows maiores, participar de entrevistas, apresentar suas músicas na televisão. Ser tradicional é resistir. Chegar ao mainstream tem valor político.


foto: divulgação


Conforme o interesse do público europeu crescia, a banda começou a incorporar cada vez mais canções em espanhol, um idioma que falavam muito bem – e com frequência. A Guiné Equatorial foi uma colônia da Espanha de 1778 a 1968. Na verdade, era a única colônia espanhola na África subsaariana e, é hoje, o único país de língua espanhola na África. O idioma é ensinado nas escolas e utilizado pela imprensa, é o principal meio de comunicação tanto na Ilha de Bioko como no continente. Depois de séculos de opressão, Las Hijas del Sol usaram a História a seu favor. O recurso linguístico as fez sobressair frente a outros artistas e imigrantes africanos. A mudança das canções bubi para o espanhol não foi mera coincidência, mas decisão estratégica. A expressão da identidade étnica de um povo não está ligada apenas a recursos verbais. As palavras são europeias, mas o modo de cantar, a técnica, os coros e a instrumentação falam bubi. "Na África a música não é uma profissão, mas uma forma de ser e de sentir" dizem Las Hijas do Sol. Somos e sentimos todos os dias. A música é sempre africana.


O sucesso local e internacional do conjunto ainda não foi alcançado por nenhum outro guinéu-equatoriano. O duo gravou seis álbuns e, mesmo após o rompimento em 2004, continuou produzindo diversas manifestações culturais. Atualmente, Paloma del Sol é escritora e lançou o livro Cuentos de África, histórias que envolvem o leitor em mundos onde lealdade, comunicação intercultural e amizade são os personagens de Bioko. Piruchi Apo tornou-se uma grande promotora musical na Guiné Equatorial, onde também dá aulas de canto e abriu um estúdio de gravação.


Uma ex-colônia esquecida. Difícil esquecer a África quando Bisila e outras deusas da Guiné Equatorial transmitem a magia do sentimento africano. Pasaporte Mundial não é apenas o nome de seu álbum mais famoso, é o documento sonoro que coloca seu país no mapa. Ao alcançar o mainstream, Las Hijas del Sol lembram o mundo de sua origem, lutam contra qualquer tipo de opressão cultural. Suas canções, sejam em bubi ou espanhol, são instrumentos que possibilitam a Espanha enxergar no espelho de sua narrativa, um reflexo comum. Muitos despertam tarde para a História. O amanhã não espera quando iluminado pelos soberanos e independentes raios das filhas do sol.


*Felipe Viveiros, graduado em Relações Internacionais pela PUC-SP, tem extensão universitária em Comunicação Empresarial pela Universidade da Colúmbia Britânica (Canadá) e é mestre em Relações Internacionais e Organização Internacional pela Universidade de Groningen (Holanda).


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