AFRO-HUMANIDADE

Cantora beninense Angélique Kidjo deixa claro que a música africana tem sido o fio condutor entre os distintos povos do Mundo.


Por FELIPE VIVEIROS*


Um antigo reino. Potência regional, de economia interna estruturada e construída sobre as edificações de suas conquistas. Uma entidade política que, de 1600 a 1904, era ordenada em uma administração central com sistema tributário e exército organizado. Nação de forte tradição oral, muito antes do francês tornar-se o idioma de Estado. Um país que, após sua independência, teve diferentes nomes, governos democráticos, golpes militares e até um Estado marxista-leninista. Prepare suas malas, vamos para Benim.


O antigo Reino de Daomé, Benim, se desenvolveu na África Ocidental no início do século 17 e se tornou potência regional no século seguinte, conquistando as principais cidades da costa atlântica da África. Hoje, Benim é o resultado artificial da expansão colonial francesa. Nação onde, embora o francês seja o idioma oficial, bariba, fula, fon e iorubá falam mais alto. O país conquistou não só a independência política, mas também sua libertação na música com um cenário cultural vibrante e inovador, no qual folclore nativo se combina com ritmos ganenses, cabaré francês, rock americano, funk, soul e rumba congolesa. O marco da liberdade do som em Benim é a cantora Angélique Kidjo, uma das maiores artistas da música internacional da atualidade.


Angélique Kidjo é filha da independência. A cantora beninense chegou aos braços de “Mama África” em um dos momentos mais esperançosos do século 20. Nascida em 1960, a estrela do país veio ao mundo junto com Benim e mais de 15 nações africanas que declararam independência naquele mesmo ano. Nasceu artista, pronta para colorir o mundo com sua voz, aprendeu a crescer e viu crescer grande parte de seu continente. Juntos, lado a lado. A experiente cantora tem sua vida e carreira moldadas pela jovem história da África pós-colonial. Angélique Kidjo não tem receio de usar sua voz para inspirar, é um palco iluminado com holofotes que indicam a importância e influência da independência africana. Quatro vezes ganhadora do Grammy, Kidjo é tão independente e influente quanto a força cultural de sua terra. Seus pais, assim como seu país, amavam arte. Sua mãe era apaixonada por teatro e teve o maior grupo de espetáculos da África Ocidental. Em casa, a música era seu quarto, um caminho “afrodiaspórico” de ancestralidade.


foto: Site oficial Angélique Kidjo / divulgação


A artista, em suas canções e performances “ao vivo”, revela a história de como chegamos musicalmente aonde estamos hoje. O alcance do povo africano está espalhado por diversos continentes, a África em momento algum se isolou do resto do mundo. A artista, na instrumentação, vocalização e construção de suas canções, deixa claro que a música africana, ao longo do século passado, tem sido o fio condutor entre a humanidade. Um caminho para união em desunião. Reconhecida como a "principal diva da África" pela revista norte-americana TIME, Angélique Kidjo avisa ao mundo, que dentro dele há sempre uma pedaço da África. Os europeus estavam enganados. Não importa o idioma, o país ou a etnia, é o continente africano quem sempre esteve no centro.


Sua produção musical tem referências que combinam tradição das etnias fon e iorubá e promove diálogo com as diversas diásporas africanas nas Américas. Em sua trilogia musical Oremi (1998), Black Ivory Soul (2002) e Oyaya (2004), a sonoridade da beninense atravessa o Atlântico e promove um verdadeiro reencontro entre as culturas africanas nos EUA, Brasil e Caribe. Ao incorporar os gêneros do continente americano, sua produção reascende a memória da ancestralidade. A música norte-americana, afro-brasileira e afro-caribenha só revelam o quanto a Benim contribuiu para a cultura contemporânea no Ocidente. Seja no jazz, no blues, no rap, na salsa, no reggae ou até em nosso samba, existe sempre uma intertextualidade que rege as dinâmicas sociais, políticas e culturais de fluxos – e refluxos – entre África, Américas e Europa.


A região do antigo Reino de Daomé entrou para a história nos livros europeus como a “Costa dos Escravos”, devido ao grande número de capturados que eram enviados ao Novo Mundo. Os negros, em sua maioria iorubás, eram vendidos para o Caribe, sul dos EUA e Brasil. Quando Celia Cruz canta em espanhol, o ritmo de sua voz é beninense. Quando o brasileiro come acarajé – em iorubá àkàrà (pão) e je (para comer) – o sabor que sente é beninense. Quando música funknorte-americana é sagaz, o gingado vem de Benim. Quando a salsa e o soul tocam em Benim, é porque retornam à sua terra.


Em Remain in Light, seu trabalho musical de 2018, a artista inova ao celebrar o rock artístico da icônica banda Talking Heads enquanto envia uma mensagem sutil sobre a origem da influência dos músicos. A África influencia o mundo que influencia a África. A cantora reinventa canções clássicas como Crosseyed and Painless, Once in a Lifetime e Born Under Punches (The Heat Goes On) em uma reinterpretação com ritmos eletrizantes, guitarras africanas e vocais de apoio no estilo “chamada e resposta”, uma personalidade cultural da coletividade das sociedades africanas. O mundo ainda não sabe, mas ouve a estilística beninense na música o tempo todo.


Angélique Kidjo é uma artivista. Através da música, a beninense aciona e articula discursos de inscrição feminina, negra e africana no mundo. Seu mais recente álbum Celia (2019), é uma homenagem a cantora cubana Celia Cruz e ganhou o Grammy de melhor álbum de World Music. As faixas exploram os estreitos laços entre Cuba e a África Ocidental. O álbum, despojado no glamour africano, investiga as raízes da ícone afro-cubana que se tornou a “Rainha da Salsa”. A voz de Angélique é como um livro rítmico que faz transbordar a geopolítica negra do Atlântico sobre a história das mulheres de Cuba. O groove afro-beat Baila Yemaja, a energia frenética de Bemba Colorá e a orquestrada Oya Diosa são excelentes exemplos disso.


foto: Capa do álbum Celia (2019) / divulgação


Angelique Kidjo, assim como os povos africanos, constrói pontes entre culturas e pessoas. Em uma sociedade globalizada, mas tão isolada em seu eurocentrismo, a humanidade da música africana chega para retratar a mistura de povos, de línguas e de tudo o que é complexo em nossa natureza. Unir a humanidade só é possível quando se é humano. Foram os movimentos de independência da África que inspiraram os direitos civis em diversos países do mundo. A música ajuda a criar conectividade, amarrar as histórias do passado e acalmar os anseios do futuro. Anquelique Kidjo é uma chance de entender que a história africana já não será contada pelos outros, quando o mundo em que vivemos são as várias cores e etnias de Benim. Uma história de sucesso na migração cultural, patrimônio da humanidade.


*Felipe Viveiros, graduado em Relações Internacionais pela PUC-SP, tem extensão universitária em Comunicação Empresarial pela Universidade da Colúmbia Britânica (Canadá) e é mestre em Relações Internacionais e Organização Internacional pela Universidade de Groningen (Holanda).


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