ACORDES DA HISTÓRIA

Bandas da Macedônia do Norte fazem balançar o berço da civilização europeia. Identidade nacional não se constrói apenas com monumentos.


Por FELIPE VIVEIROS*


Os ventos comuns do mainstream, quando o assunto é Europa, sopram forte para o Oeste. Quando diversificamos nosso repertório cultural, filmes franceses, comida espanhola e séries escandinavas vão para a sala troféus do “algo novo”. E se formos mais além? No continente, existe uma região que tem sido habitada por milênios. Há, inclusive, evidências arqueológicas de que a antiga civilização europeia floresceu ali, entre 7000 e 3500 a.C. Quem pensa que a Europa é homogênea, se engana. Na fusão dos povos diáconos, trácios, ilíricos, celtas e gregos, nasce a Macedônia.


Conhecida oficialmente hoje como “Macedônia do Norte”, o país contrasta com seus vizinhos. Enquanto os Estados da região, nos esforços para se separar da Iugoslávia, provocaram campanhas de violência nacionalista e limpeza étnica no início dos anos 1990, a então República da Macedônia foi estabelecida, sob clima de paz, como Estado soberano. Como? Tornou-se independente em 8 de setembro de 1991, por voto livre, direto e secreto dos seus próprios cidadãos. Uma verdadeira conquista popular. Caminho para o sucesso? História em construção.


Desde sua independência, a Macedônia tem enfrentado sérios desafios, tanto na questão doméstica quanto internacional. Na transição do socialismo para uma economia de livre mercado, uma sucessão de governos foi atormentada pela corrupção. Obstáculos econômicos, conflitos étnicos e luta política proporcionaram aos macedônios uma nova chance de se apresentarem não só para o mundo, como também – e talvez mais importante – para os seus concidadãos. O maior exemplo disso pode ser ouvido no fervor da cena musical independente. As bandas macedônias não são surdas aos problemas políticos e sociais do país, e fazem barulho com a consciência de propor um novo debate. É o caso do grupo de pós-punk Bernays Propaganda.


Um dos conjuntos musicais de maior sucesso e reconhecimento internacional na região, Bernays Propaganda tem cinco álbuns de estúdio e encanta com revolução dançante. Seu nome é referência ao livro “Propaganda” do austríaco Edward Bernays, o “pai das Relações Públicas”. Mestres do intercâmbio de informações, os membros da banda trocam conteúdo lírico com letras sociopolíticas. Seu último álbum Vtora mladost, treta svetska vojna (2019), “Segunda Juventude, Terceira Guerra Mundial”, é a combinação de riffs de baixo minimalistas, sintetizadores pulsantes e a suave voz da frontwoman Kristina Gorovska. As faixas são hinos de protesto na pista de dança. Uma festa que celebra a desobediência civil e os direitos humanos, temas que sempre estiveram no topo da agenda da banda. Bernays Propaganda é o comentário sútil sobre qual é melhor maneira de viver na loucura contemporânea chamada democracia. E o post-punk não dança sozinho na antiga Iugoslávia.


foto: divulgação


O hip-hop macedônio começou nos anos 1980, na então República Socialista da Macedônia. A primeira faixa a alcançar sucesso nacional veio com a banda Super Nova e o manifesto anti-guerra Rapovanje, popular em todo o país em 1989 – ano da queda do Muro de Berlim. O gênero experimentou um crescimento considerável após a declaração de independência, conquistando universidades e centros culturais. O grupo Legijata (em português “A Legião”) é um dos maiores artistas da cena, com som inovador que através da rima discute posições ideológicas e narrativas de memória cultural envolvendo história, etnia e identidade nacional. Importante discussão. A capital Skopje é uma cidade dividida. O lado oeste é moderno e macedônio. O leste tem ar turco e é predominantemente albanês e muçulmano. Legijata, assim como o rio Vardar, flui pelas fronteiras que separam os centros urbanos. Seu álbum Losh Den Za Imperijata (2008), “Dia Ruim Para o Império”, se tornou o álbum de hip-hop macedônio mais bem sucedido de todos os tempos. O choque de culturas agrega nas ruas de Skopje. Difícil enxergar “dentro ou fora” do país quando os gêneros musicais entendem as pessoas.


foto: divulgação


O período de transição entre o socialismo e o novo governo estendeu-se até 2004. Durante a fase de mudança política, DJs de todo o país foram influenciados pelas cenas musicais norte-americanas e iniciaram um burburinho cultural de house e techno, um verdadeiro manifesto contra o estado de inércia da sociedade macedônia. O expoente desse movimento é o PMG Kolektiv criado por Mirko Popov, o primeiro DJ internacional do país. Seu coletivo instigou todo tipo de novidades, desde a euforias das drogas até as revoluções musicais. O segredo, assim como no enfrentamento dos obstáculos econômicos e da luta política, foi a dedicação ao improviso. O contexto espiritual e sônico do grupo está enraizado na revolução techno-cultural da Macedônia. Um novo desafio musical e social que define a essência do que é o folclore urbano do país. O álbum Ex You (2015) é um chamado para superar a insatisfação com a conjuntura-cultural da atualidade... Assim como também faz o punk macedônio.


foto: divulgação


Uma das bandas mais reconhecidas da cena punk local é Noviot Pochetok (em português, “Novo Começo”), famosa por apresentações explosivas. O conteúdo de suas letras, escritas em sua maioria no idioma nativo, é uma posição política. O macedônio é a língua eslava mais próxima do búlgaro, escrita no alfabeto cirílico e cada vez mais usada pela comunidade local. Mas, não se engane. O ritmo punk de Noviot Pochetok é de forte inspiração californiana, com energia rápida e viradas cruas de bateria. O som do conjunto é mais próximo de um Green Day balcânico. O aclamado álbum Jas Sum Zemja (2015), “Eu Sou a Terra”, toca em temas íntimos e políticos, na perversidade da sociedade, no poder humano de destruição e na habilidade política do país de amar a adversidade que existe no outro. Um mensagem de cidadania para além-fronteiras, que conquista e conforta também os vizinhos sérvios e croatas.


foto: divulgação


Nos últimos anos, o governo local tem tentado criar uma nova identidade nacional, um rebranding da paisagem urbana substituindo monumentos da Era Iugoslava por estátuas de leões e cavaleiros, arcos triunfantes e edifícios neobarrocos. A identidade nacional não se constrói apenas em concreto armado. É a música que edifica a cidade. Todos que já desejaram uma Grande Grécia, uma Grande Bulgária, uma Grande Romênia, reivindicaram a grande Macedônia. A renovação da capital acontece nas vielas do som, nas escalas musicais que sobem o tom da população. Bandas como Bernays Propaganda, Legijata, PMG Kolektiv e Noviot Pochetok expressam uma posição crítica não só ao passado, como faz o governo, mas ao presente que ainda não aconteceu. Quando o assunto é Europa os ventos deveriam soprar à Leste e balançar o berço da civilização europeia. A paisagem da cidade é construída pelos acordes da história, que em construção, seguem sendo uma verdadeira conquista popular.


*Felipe Viveiros, graduado em Relações Internacionais pela PUC-SP, tem extensão universitária em Comunicação Empresarial pela Universidade da Colúmbia Britânica (Canadá) e é mestre em Relações Internacionais e Organização Internacional pela Universidade de Groningen (Holanda).

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