A PRISÃO É UM REINO

Filme da Costa do Marfim mostra como política e mitologia se confundem. A arte africana de narrar histórias.


Por FELIPE VIVEIROS*


Contar histórias é tão antigo quanto respirar. Um registro universal da humanidade, característica de todos os povos em todas as épocas. Muito antes de existir a escrita, a narração de histórias informava e afirmava tradições e valores culturais. Quem tem um pai, um amigo, um professor ou até mesmo um chefe contador de histórias sabe que um bom storytelling não depende só de memória e voz. É o conto através da imaginação, da criatividade, de gestos e expressões. Não faz falta que seja preciso ou verdadeiro, o requisito básico é encantar a plateia.


Na África Ocidental são os griots, trovadores e conselheiros dos reis, que desempenham a função de contadores de histórias, historiadores e genealogistas. Tiveram origem no século 13, no Império do Mali e por muito tempo contaram e recontaram a História dos seus monarcas, mantendo vivas suas memórias e tradições. Entre sátiras, comentários políticos e poderes espirituais acreditava-se que seu discurso tinha poder de recriar a História e, até mesmo, os relacionamentos. Os griots mantêm o tempo vivo na morte do viver. São uma árvore de baobá, um testemunho da cronologia do Mundo. A oralidade africana nos conta uma história mais completa do que a narrativa escrita dos colonizadores.


Quando os invasores europeus chegaram, descreveram os africanos como selvagens. Gente que não tinha outra língua além do desespero. Não foram ouvidos, não tiveram a oportunidade de contar quem são. E isso está mudando. Nos últimos tempos, o cinema tem destacado as ricas histórias orais da África, como traz o diretor Philippe Lacôte no filme marfinense A Noite de Reis.


foto: divulgação


Inspirado em sua própria infância, a obra mescla o folclore, o sobrenatural e o realismo mágico. O diretor cresceu na cidade de Abidjan, onde o filme é ambientado. Quando criança visitava sua mãe, levada para a cadeia de “La Maca” por protestar contra o autocrata Félix Houphouët-Boigny, o primeiro – e despótico – presidente da Costa do Marfim, que permaneceu no poder de 1960 a 1993. Anos mais tarde, o cineasta traz à tona a reputação mítica da prisão, onde assassinos notórios são confinados junto a meros batedores de carteira e corajosos dissidentes políticos. Quem pensa que Noite de Reis é “filme carcerário” comum, equivoca-se. É um olhar claro sobre a política da Costa do Marfim, onde a realidade só é entendida quando contada por meio de fantasias. A produção marfinense é sobre cumprir pena e se emancipar, uma análise lúdica sobre a arte de narrar.


"Conte-me uma história" é o comando dado a um recém-chegado à penitenciáriaLa Maca”. O novo detento é apelidado de Roman pelo Barba Negra, o dangôro – rei dos reclusos – que dá o nome como uma forma de conferir status ao novato. O título de Roman é uma “variação penitenciária” do griot da África Ocidental, encarregado de entreter e educar seus companheiros de prisão. Com um preço. Diferente do griot convencional, o roman é morto se a narração de sua história tiver fim. Assim, como uma Sherazade das mil e uma noite modernas, o involuntário protagonista faz de tudo para encantar o público com suas histórias, uma vez que sua sobrevivência depende de engenhosa criatividade na narrativa. As palavras são os fios que tecem sua sobrevivência ou não.


Barba Negra, embora líder, está à beira da morte. A lei dos sem lei dita que um dangôro doente é incapaz de governar seus súditos, e deve, portanto, matar-se. Como na política fora da cadeia, apoiadores e oposição têm interesse na sua morte e rodeiam o líder em busca de poder. Cabe ao Roman, durante a noite, manter os detentos distraídos. O jovem escolhe “O Rei Zama”, famoso chefe da gangue para qual trabalhava, como fio condutor de suas narrativas. O contador faz da ficção a verdade e da verdade a fantasia, ganha tempo e mantem a multidão reunida e engajada. Seus contos, hipnotizantes, se estendem por séculos de guerras, violência e amor, histórias dentro de histórias que avançam de um ato de violência para os muitos outros que se seguem.


foto: divulgação


A trama se desenrola na recriação da narração de Roman e são os prisioneiros quem se encarregam de representar as cenas. Acompanham através do canto, da dança e da pantomima, dando corpo e forma às palavras do contador de histórias. Isso reflete a tradição marfinense de narrativa, que não depende de um orador solitário em um monólogo, mas de uma apresentação dinâmica em um diálogo grupal. A recriações das histórias de Roman são como um lembrete de que, embora os corpos estejam presos em “La Maca”, seus mundos não estão. Noite de Reis é uma alegoria onde realidades pré e pós-coloniais dançam com mímica, poesia e oralidade.


Cada vez que a história contada por Roman parece chegar ao fim, a sede de sangue do público é despertada. O griotpenitenciário, ao dizer que esqueceu uma parte crucial, doma os detentos que o assistem, mergulhando em mais um trecho “ainda desconhecido” da vida do Rei Zama. Os presos aplaudem ou zombam das reviravoltas de suas narrativas, porque não podem afirmar nada. Fatos ou versões, realidade ou ficção? Não importa. A audiência não procura a verdade em seus contadores de histórias. Há magia em deixar que um conto perpasse sua mente, seu corpo e seu espírito. É a narração de histórias que torna a vida humana suportável.


Em uma terra onde as eleições são sangrentas e a transição de liderança raramente é pacífica, o longa metragem é uma alegoria poética à Costa do Marfim. Nos últimos 20 anos, o país foi marcado por duas guerras civis. A primeira, em 2002, quando o norte e oeste do país se dividiram em partes irreconciliáveis, e a segunda em 2010, quando o presidente em exercício, Laurent Gbagbo, recusou-se a reconhecer a vitória presidencial do líder do norte, Alassane Ouattara. A violência resultou na morte de milhares de pessoas e obrigou pelo menos um milhão delas a fugir de Abidjan. O Rei Zama tornou-se o favorito dos líderes rebeldes do norte após a prisão de Gbagbo, porque encontrou legitimidade política para matar e roubar em um cenário de abandono. A prisão “La Maca” é apenas o submundo para o qual a nação bane seus homens, depois de ter saqueado sua juventude e poder. É dentro da cadeia onde vivem os príncipes sem reino.


As histórias, fantasiosas ou não, atravessam o tempo e o espaço com a intenção de trazer a África pré-colonial ao futuro e desenhar lembretes da auto governança africana. Todo filme conta uma história. O marfinense Philippe Lacôte lembra-nos que os diretores cinematográficos, queiram ou não, são griots modernos. Entretêm, educam e encantam afirmando tradições e valores culturais, enquanto política e mitologia se confundem. Noite de Reis não é um filme sobre o poder de contar histórias. Tem uma poderosa história para contar.


*Felipe Viveiros, graduado em Relações Internacionais pela PUC-SP, tem extensão universitária em Comunicação Empresarial pela Universidade da Colúmbia Britânica (Canadá) e é mestre em Relações Internacionais e Organização Internacional pela Universidade de Groningen (Holanda).


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