A NOVA ERA

Munidos de rimas e atitude, coletivo Waayaha Cusub luta contra o extremismo político-religioso na Somália através do hip-hop.


Por FELIPE VIVEIROS*


Em 1991, uma guerra civil atingiu um dos mais conhecidos países da África Oriental. Desde então, no lugar de um governo centralizado, o território tem sido (des)governado por gangues e facções beligerantes que fazem da intimidação e brutalidade, suas maiores ferramentas para exercer o poder. Há décadas, violência e conflito têm sido um constante pesadelo aos que sonham com estrutura e estabilidade na antiga civilização do Chifre da África: a Somália.


Conhecido pela turbulência política, o país nem sempre foi assim. A cobertura internacional dos conflitos recentes e a rasa abordagem da História da Somália pela mídia ocidental, dão a entender que a região foi sempre “terra de ninguém”. Longe disso. A Somália já foi a sede de poderosos impérios desde os Sultanatos de Ajuran, Adal e Geledi na Idade Média até os Reinos de Isaaq e Majeerteen no século 19, colonizados – de maneira brutal – pela Itália e Inglaterra. Entendida pelos europeus como “A Terra da Barbárie”, a Somália dispunha de um Estado Moderno integrado à uma rede comercial robusta que incluía tratados com governos estrangeiros e forte autoridade doméstica centralizada. Os “bárbaros”, na verdade, eram aqueles que haviam acabado de chegar. Dava-se início a infame instabilidade política da Somália que, de maneira artificial e sistemática, teve seu governo central desmantelado pelos colonizadores.


O país nunca foi o mesmo. Ainda que independente em 1960, plantava soberania e colhia opressão. Aprendeu a funcionar assim. Nove anos depois de conquistar independência, sofreu um Golpe Militar sob a liderança do general Siad Barre. Conhecido como o “Conselho Revolucionário Supremo”, o novo Estado prendeu membros da oposição, proibiu partidos políticos, dissolveu o parlamento e suspendeu a constituição. O lar das antigas dinastias do Chifre da África, passou a ser governado por 25 funcionários – todos militares. O desfecho? O regime entrou em colapso na década de 1990, levou a um conflito aberto entre diferentes facções políticas e deu início a uma perpétua Guerra Civil.


Em meados dos anos 2000 o “Conselho Supremo das Cortes Islâmicas” – milícia fundamentalista – assumiu o controle da Somália e utilizou sua ala mais combatente, conhecida como Al-Shabaab (em português “A Juventude”) para governar; ou melhor, policiar o país. Repressão atroz das mulheres, lapidações, amputações e decapitações se tornaram táticas comuns para “educar” o povo somali. O poder de Al-Shabaab foi uníssono em seu domínio sobre o território. Até então. Colocando suas vidas em risco, os membros de um coletivo musical apresentaram-se como oposição... Não armada. Munidos de rimas e atitude, a luta de Waayaha Cusub contra o extremismo político-religioso acontece através do hip-hop.


foto: divulgação


Composto por refugiados somalis, Waayaha Cusub nasceu no Quênia, onde seus membros se elixaram para escapar do conflito na Somália. O nome do conjunto significa "A Nova Era". “Queremos terminar esta guerra de vez” é a resposta-mantra do rapper Shiine Akhyaar Ali quando questionado sobre a arriscada existência do grupo. Liderado por ele e pela cantora Falis Abdi – que agora são casados – sua música experimentou sucesso pela primeira vez com canções sobre amor, pobreza e direitos humanos. Não era o suficiente. À medida que a crise na Somália se aprofundava, a letra de Waayaha Cusub conquistava “territórios mais perigosos”. Se o sistema é agressivo, a música precisa ser mais agressiva do que o sistema. Nessa selva vence o leão com o rugido mais forte. O grupo iniciou uma nova era na música somali, e a escolha do rapcomo instrumento de batalha não foi por acaso. A voz dos dissidentes políticos ecoa melhor quando é rimada – de maneira curta e direta – contra seus opressores.


Canções como Yaabka al Shabaab – em português "Rejeite os Extremistas" – tornaram-se bastante populares na diáspora somali. Corajosos, os membros do grupo acusam a milícia Al-Shabaab pelos crimes e atrocidades contra a Humanidade: “Chocados, chocados! Quem está por trás desse rastro de destruição? O terrível Al-Shabaab! Eles mobilizam pessoas na rua para sua causa perversa. Eles professam ser piedosos, mas levantam facões”. Al-Shabaab tomou conhecimento sobre as canções do grupo e enviou mensagens em tom de ameaça. Os fundamentalistas entendem que o rap dos somalis é “propaganda anti-Islã” e merecedora de retaliação. Foi o que aconteceu. A liberdade de expressão blinda as mentes pensantes, mas não a pele daqueles que têm coragem de pensar. Ali foi baleado cinco vezes e o coletivo foi vítima de dois ataques desde então.


Em 2012, um vislumbre de esperança surgiu. A Somália elegeu o ativista político-civil Hassan Sheikh Mohamud como seu primeiro presidente em décadas. A eleição trouxe um ambiente mais estável para o país. Claro, Waayaha Cusub não perdeu tempo. No ano seguinte, o coletivo liderou a Somali Sunrise Tour for Peace, uma série de shows na África Oriental que culminou no Festival de Música de Reconciliação em Mogadíscio – o pioneiro evento musical formal da Somália desde o início da Guerra Civil, em 1991. Era a primeira vez que os artistas somalis se apresentavam em sua cidade natal. Do outro lado do palco, também era a primeira vez que a plateia (ou)via música “ao vivo” na cidade, depois que Al-Shabaab proibiu a alegria do som em 2009. Com um público de milhares de pessoas, o evento contou com a presença de 850 ex-combatentes do Al-Shabaab e foi considerado o festival de música mais perigoso da história da Somália.


foto: divulgação


Waayaha Cusub é como um microcosmo de poderes unificadores, com capacidade de substituir o fundamentalismo pelas rimas fundamentais do rap. Por outro lado, suas atitudes geraram conforto social e desconforto político. O “green card” do grupo foi revogado por funcionários conservadores do Quênia, que os obrigaram a procurar asilo político na Holanda – onde gravaram seu álbum Nabad Waa Muhim (em português “Paz é Vital”).


A tenacidade de Waayaha Cusub não está apenas nas letras políticas de suas canções, mas na maneira com a qual redefinem o lugar de falar somali. O coletivo responde à violência do extremismo político ao proporcionar aos jovens um espaço único onde é o microfone aberto que acaba com a guerra. Enquanto grupos fundamentalistas fazem bombardeios surpresa para destruir, os rappers somalis fazem shows surpresas para construir e trazer de volta a mensagem de paz. A diplomacia no Chifre da África já não acontece mais nas Cúpulas de Chefes de Estado. Acontece na batida diplomática de um som que se faz ouvir mais alto do que o som da guerra. Waayaha Cusub, mesmo sob a ameaça de morte, seguirá compondo porque sabe que o medo, assim como a morte, silencia. O rap somali mostra que liberdade e paz valem tanto quanto a vida.


*Felipe Viveiros, graduado em Relações Internacionais pela PUC-SP, tem extensão universitária em Comunicação Empresarial pela Universidade da Colúmbia Britânica (Canadá) e é mestre em Relações Internacionais e Organização Internacional pela Universidade de Groningen (Holanda).


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