VIDA AOS PÉS DO VULCÃO

Filme Ixcanul revela os impasses atuais do povo maia na sociedade guatemalteca.


Por FELIPE VIVEIROS*

VIDA AL PIE DEL VOLCÁN (Español)
.pdf
Download PDF • 304KB

Ixcanul significa "vulcão" em Kaqchikel, idioma de origem maia falado por meio milhão de pessoas na América Central. Ixcanul é uma explosão metafórica e uma metáfora explosiva sobre a dinâmica das populações indígenas da Guatemala. Ixcanul é o filme guatemalteco mais premiado de todos os tempos.


A civilização maia é muito conhecida pela arquitetura, astronomia e calendário avançados. Sua influência se fundamenta nos pilares dos diversos templos espalhados por Honduras, Guatemala, El Salvador e México, onde o céu e os dias são maias.


María, interpretada por María Mercedes Coroy, é uma jovem maia que ajuda os pais no manuseio do café e no cuidado do gado. A menina tem 17 anos e já está noiva do superintendente da fazenda, em um casamento arranjado. O arranjo é complexo e tem como objetivo garantir moradia para a família e a certeza de um emprego.


foto: divulgação


Prometida em casamento, María já tem um namorado secreto, Pepe, jovem que acredita no “sonho americano” e que alimenta intenções de fugir para os EUA. A hierarquia linguística vem à tona quando María questiona o menino indígena de maneira irônica: "É melhor aprender Espanhol, do que começar a falar Inglês." As relações étnicas também se tornam evidentes nas conversas em que os amigos de Pepe o ridicularizam porque vai escapar para a América do Norte. "Você acha que os gringos vão estar com um emprego e uma casa esperando por você? Você vai ser capacho de branco." Pepe contesta: "Não, eles têm negros para isso". Fica clara uma hierarquia racial, além do que se entende por racismo.


Embora os descendentes das populações originárias sejam metade da população guatemalteca, são ignorados na representação da sociedade. São índios, carecem de modernidade, não falam Espanhol. São habitantes que trabalham duro nas plantações para se endividarem comprando e bebendo nos armazéns dos proprietários de terras. Não muito diferente do que ainda acontece no Brasil.


O filme afronta essa hierarquia racial de modo inteligente, bem como o machismo que aflige a sociedade guatemalteca. Com intenções de fugir do casamento arranjado e na esperança de acompanhar o namorado na empreitada para os EUA, María segue por caminhos que colocam em xeque o destino da família. Em sua primeira relação sexual, engravida de Pepe. Seu noivo ameaça demitir seu pai das lavouras de café e expulsar a família do lote de terra que ocupam. A mãe deseja que a filha aborte.


fotos: divulgação


O filme foi gravado com verdadeiros agricultores maias e é o primeiro longa-metragem do diretor guatemalteco Jayro Bustante. A fotografia do é deslumbrante tanto na paisagem das terras vulcânicas quanto no estilo de vida da população maia, em mistura poética de identidade com sensibilidade. O longa, que ganhou o prêmio “Alfred Bauer” do Festival de Cinema de Berlim, é o primeiro filme da história a ser produzido em língua Kaqchikel e o primeiro da Guatemala a ser nominado ao Oscar como Melhor Filme Estrangeiro.


Em episódio crítico no qual María, grávida, precisa de cuidados médicos, a família vai ao hospital na cidade. Os médicos não entendem qual é o problema: "Não falo sua língua". O único que pode se comunicar em Espanhol é o superintendente da plantação e noivo de María, que manipula todas as traduções feitas, o significado dos documentos e decide o destino da jovem e do bebê. Ixcanul deixa claro que a língua tem poder político. Quem domina o Espanhol também domina as populações que carecem de recursos linguísticos – e portanto legais – para defender-se. Os maias são estrangeiros no próprio país.


Estrangeiros no próprio país, os povos maias se estabeleceram no norte da América Central entre 1000 A.C. a 250 D.C. Embora ainda se tenha uma visão mística e mitológica do povo, nunca deixaram de existir, nem mesmo com a chegada dos invasores espanhóis. Hoje, são parte considerável da população da América Central e mantêm cultura singular na mescla de tradições pré-colombianas e catolicismo romano.


O filme Ixcanul lida com superstições, tradições e costumes. Vai muito além do estereótipo impreciso e preconceituoso entre vida indígena versus modernidade, como muitos que não vivem em um mundo moderno gostam de imaginar. A obra escancara a facilidade com que aqueles que têm recursos podem se aproveitar dos que não têm. E ensina que o isolamento dos povos indígenas não é um fator geográfico, mas tem origem em vulcões étnicos, linguísticos e de gênero prestes a entrar em erupção.


*Felipe Viveiros, graduado em Relações Internacionais pela PUC-SP, tem extensão universitária em Comunicação Empresarial pela Universidade da Colúmbia Britânica (Canadá) e é mestre em Relações Internacionais e Organização Internacional pela Universidade de Groningen (Holanda).



DO RESTO DO MUNDO

cultura

  • Facebook
  • Instagram
  • Spotify

Copyright © 2020 Cultura do Resto do Mundo.

Todos Direitos Reservados. Arte do Site: Viviane Seeger.

  • Facebook
  • Instagram
  • Spotify