A VOZ DA INDEPENDÊNCIA

Cantora do Saara Ocidental, Mariem Hassan, é a doce voz que o Marrocos não quer escutar.


Por FELIPE VIVEIROS*


Mariem Hassan traz nas doces notas de sua voz um amargo conflito que perdura há décadas. O deserto reverbera, em areias profundas, o som que ecoa que entre o Saara Ocidental e os governos que reivindicam seu domínio. As canções de Mariem Hassan são canal de comunicação para divulgar a história dos que foram pressionados a fugir. A artista é a voz de protesto do povo sarauí no norte da África, embaixadora cultural de um país que carece representação na ONU, de um inimaginável território pendente de descolonização.


A cantora e compositora combina a música do Saara Ocidental com ritmos marcantes no violão, criando uma experiência que faz da poesia uma bandeira de transformação. O ouvinte é convidado a compartilhar e a entender o sentimento anticolonial, debater a injusta ocupação da pátria do deserto. Pressionada pelo Marrocos, a Espanha retirou seu domínio colonial sobre o Saara Ocidental em 1975, deixando a população vulnerável em abrupta escassez de recursos. É na terra árida que se produz a música mais fértil.


Mariem Hassan nasceu em 1958 em Ued Tazua, no então Saara Espanhol, em leito seco de uma família nômade as margens do rio El Gaiz. Seu pai era um cuidador de cabras e camelos e a cantora cresceu entre seus nove irmãos, três dos quais foram mortos na luta contra o Marrocos. Aos 13 anos de idade, a menina sarauí foi forçada a se casar com um homem de 25 anos, a quem não amava. Conseguiu escapar durante a cerimônia de casamento.


Desde jovem cantava em eventos religiosos toda quinta-feira, na véspera do Dia Santo Islâmico. Nessas solenidades, a música e a poesia serviam como porto seguro para perpetuação da cultura e das práticas sarauís, restringidas nos demais espaços pelas autoridades coloniais espanholas. Festas e celebrações culturais eram vistas como ameaça ao Governo da Espanha, que apresentava apenas uma brecha em seu sistema de opressão: mulheres não eram vistas como influentes aos olhos das autoridades, não representavam "ameaça política". Pouco a pouco, as corajosas mulheres sarauís se tornavam intérpretes de poesias de rebelião e resistência em casamentos e cerimônias religiosas. Mariem Hassan descobria, com o aval do ingênuo Governo Espanhol, que sua voz era também sua liberdade.


Ainda adolescente, a ícone do Saara se envolveu com política e, em agosto de 1975, cantava em uma reunião clandestina da Frente Polisario, o movimento de libertação nacional sarauí. A reunião foi desmantelada pela polícia espanhola e, assim como do seu casamento arranjado, a jovem escapou por um triz. Sua vida mudou de maneira drástica quando, em outubro daquele mesmo ano, a Espanha se retirou oficialmente do Saara, abrindo espaço político para o Marrocos reivindicar o território. Os marroquinos iniciaram a anexação com bombardeios e tomada do poder pelos militares, levando metade da população sarauí, incluindo Mariem Hassan e sua família, para o exílio.


Depois de mais de 20 dias de viagem, Mariem e milhares de outras vítimas chegaram à fronteira argelina, onde foram transferidos em caminhões para campos de refugiados em Tindouf, na Argélia. Passaram-se dias, meses e anos e nunca puderam voltar. Um muro havia sido construído no meio do Saara Ocidental. Arquiteta da música, Mariem Hassan projetava, com a sua voz, uma ponte que alçava os refugiados de volta para casa.


fotos: Jornal Outras Palavras


Enquanto os homens partiam para lutar contra os marroquinos, as mulheres ficavam para cuidar dos campos e dos feridos. Mariem tornou-se enfermeira e assumiu um segundo papel, lutando como cantora. Em 1976, se uniu ao grupo musical Shahid El Uali e viajou para diversos países, tocando em festivais de alto conteúdo político, muitas vezes boicotados por oficiais marroquinos. Gravou álbuns em diferentes regiões com a ajuda de comitês locais de solidariedade. O mais conhecido é o emblemático Polisario Vencerá, o primeiro LP de música sarauí, gravado ao vivo na Espanha, em 1982. A Frente Polisario percebeu a importância da música para as relações internacionais e a necessidade de ter uma banda com ideias políticas claras que promovessem a causa pelo mundo. Mariem Hassan foi aclamada pelas canções de enaltecedoras da Frente, em sua maioria interpretadas em hassania, dialeto árabe falado no Saara Ocidental. Mariem tornara-se também diplomata cultural.


Muitas das nossas narrativas ocidentais, principalmente as mais conservadoras, retratam as mulheres árabes como impotentes, "vítimas da tradição", atrasadas. A música e as representações das mulheres sarauís nos contam uma história completamente diferente. Mariem Hassan não veste jeans e calça tênis da moda, ela veste Al malahfa, um vestido de quatro metros de comprimento. E canta sobre força, liberdade, igualdade. É mulher no controle do próprio destino, com um poder maior do que o dos governos que dominaram seu território. Porque é um poder autêntico, genuíno, que vem de dentro da alma do seu povo. A artista tem uma voz que transcende tempo e espaço com a energia sólida do rock e a melodia árabe que hipnotiza. É por trás do vestido de quatro metros de comprimento que emanam explosivos sentimentos de justiça e pertencimento.


foto: divulgação


A guerra com Marrocos chegou ao fim 1991 e, desde então, houve pouco progresso – e interesse – na resolução do "Saara Ocidental ocupado". As reinvindicações por independência continuaram na campanha musical de Mariem Hassan. Sua consagração definitiva veio com Deseos (2005), seu primeiro álbum solo, que traz a participação do produtor Baba Salama, seu irmão Boika no violão e a percussionista Fatta: três dos melhores músicos dos campos de refugiados de Tinduf, na Argélia. Uma das faixas mais aclamadas é o blues La Tumchu Anni (em português: “Não Me Abandone”), um terno e intenso tributo aos mortos na guerra do Saara Ocidental. El Chouhada (em português: “Mártire”) é, também, tocante e ressoa a dura perda dos seus três irmãos mortos nos conflitos com o Marrocos.


Em 2010, Mariem Hassan lançou o álbum Shouka, que combina instrumentos e ritmos sarauís com canções que colocam em evidência a história do Saara Ocidental e a atual situação com os refugiados. Dois anos depois com o seu terceiro álbum solo, El Aaiun Egdat (em português: “El Aaiun em chamas”) traz a faixa Gdeim Izik, canção política de revolta que aborda o ataque marroquino a um campo de protesto sarauí em 2010. Um lembrete poderoso e emocionante de que a situação atual no seu país de origem ainda está em chamas, assim como sua luta pela libertação do território.


Mariem Hassan deu seu último show no festival FiSahar, evento anual que acontece nos campos sarauís na Argélia e agradeceu aos refugiados por permitirem que ela fosse sua voz. Vítima de um câncer, que acompanhou a artista muitos anos de sua vida, Hassan voltou aos acampamentos pela última vez e lá permaneceu até sua morte, em 2015. Apesar do estado crítico de saúde, trabalhou pela cultura sarauí até seu último suspiro e deixou uma série de canções que aparecem em seu trabalho póstumo La voz indómita (2017). A energia de Mariem Hassan pode não ter vencido o câncer, mas trouxe unidade de cura ao peso da causa sarauí, com visão esperançosa do futuro.


Os sarauís, mesmo com as constantes sabotagens na construção de um país que lhes é de direito, têm mantido, modernizada e transmitida sua herança cultural na música. De maneira inevitável Mariem Hassan tornou-se a realidade do Saara Ocidental em todas as partes do mundo, voz que se fez mais forte quando seu povo teve que aceitar o exílio como forma de sobrevivência. Foi a música o meio mais eficaz de conscientizar o planeta sobre sua absurda situação. Hoje, a ONU considera a Frente Polisario como legítimo representante do povo sarauí e sustenta que os sarauís têm direito à autodeterminação. De todas as maneiras, A Frente Polisario continua proibida no Saara Ocidental sob controle marroquino, onde é ilegal levantar sua bandeira, muitas vezes chamada de símbolo pátrio sarauí.


Em tempos de divisão global, construção de muros, injustiça e preconceito, a voz de Mariem Hassan traz, em vários tons, uma só história que deixa claro quem são os legítimos donos do "território em disputa". Sua música determina e representa a causa sarauí, e continua a trazer unidade para um país que jamais descansará enquanto não for independente e soberano. A doce voz de Mariem Hassan pode não ser a voz que o Marrocos quer escutar, mas com certeza rompe quaisquer muros que impeçam os sarauís de retornarem as suas casas.


*Felipe Viveiros, graduado em Relações Internacionais pela PUC-SP, tem extensão universitária em Comunicação Empresarial pela Universidade da Colúmbia Britânica (Canadá) e é mestre em Relações Internacionais e Organização Internacional pela Universidade de Groningen (Holanda).



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