O RAP DO IMPÉRIO INCA

Com 19 anos, Renata Flores rima, em língua centenária, a história contemporânea do Peru. Faz justiça musical.


Por FELIPE VIVEIROS*


Que língua se fala na América Latina? Na maioria dos países do mundo, a resposta é sempre a mesma: —“Espanhol, claro!”.


A afirmativa dispara um alarme nos ouvidos dos brasileiros, que entendem isso como falta de consideração. Deixemos o egocentrismo de lado. Seja em português, espanhol ou, até mesmo, francês, seria o nosso continente tão “latino” assim? Os descendentes do maior império da América pré-colombiana diriam o contrário. Muito antes da invasão dos europeus, no século 16, o quechua já era a principal língua do “Umbigo do Mundo”: a cidade de Cusco, no Peru.


Quechua é falado, hoje em dia, por mais de oito milhões de pessoas na América Latina. Isso significa que o número de falantes da língua do Império Inca é duas vezes a população do Uruguai. Língua indígena mais falada em nosso continente... Sinônimo de respeito? Parece que não. Nas últimas décadas, a migração interna transformou a região em uma das mais urbanizadas do mundo. As línguas indígenas mudaram para as cidades, mas não encontraram sua voz. Sem presença na mídia, abafadas pelas frenéticas buzinas do euro-centrismo, seu reconhecimento foi relegado a espaços étnicos e museus. A hierarquia de valor existe nos idiomas. E alguns valem mais do que outros.


A ausência do quechua nos centros de poder o tornou menos acessível às gerações de hoje. A preocupação com "inferioridade" – e o constante assédio – forçaram muitos a abandonar sua língua nativa para assimilar a voz dos próprios colonizadores. Falar uma língua indígena, com mais de 800 anos, não é sinônimo de respeito. É prova de discriminação e rejeição social. Mas, não para sempre. A rapper peruana, Renata Flores, vira o jogo ao cantar em quechua e não em espanhol, a história contemporânea do “Umbigo do Mundo”. Um ato de resistência.



foto: divulgação


Renata Flores é a voz das pessoas que não têm merecido a devida atenção. Seu equilíbrio entre o tradicional e o rebelde impulsiona intenso debate sobre identidade no país. Com apenas 19 anos, a artista lidera uma nova geração de talentos que produz estilos contemporâneos como o rap na centenária língua dos incas. Não há melhor maneira de ver o invisível do que com os olhos da cultura pop.


A cantora tinha 14 anos quando começou a interpretar canções de Michael Jackson, em quechua. Não se contentou em fazer “mais um cover” do rei do pop, e sim de trazer as tradições de seu povo de volta à vida cultural do Peru. A jovem publicou sua versão de The Way You Make Me Feel com Vilcashuamán ao fundo, joia arquitetônica dos incas em Ayacucho, sua cidade natal. Na cabeça, vestia o chullo, o “gorro peruano”, que tem se tornado cada vez mais o símbolo da luta contra discriminação étnica. O vídeo foi visto mais de dois milhões de vezes e, antes que se desse conta, a adolescente havia se tornado sensação na Internet.


O uso recente do quechua na música urbana levou a língua inca do espaço privado para o público. A rapper não apenas reafirma sua identidade cultural, mas coloca um símbolo de 800 anos para dialogar com a música pop. O caminho para extinção de uma língua é não usá-la como seu principal veículo de expressão. Quando a mídia elege um idioma como “contemporâneo”, a mensagem que transmite para os milhões de falantes de quechua é de que eles não existem no mundo moderno. Renata Flores mostra o contrário, e conta essa história com muita força e estilo.


Quando a artista começou a compor, percebeu que o conteúdo de sua mensagem precisava de um ritmo contundente, um estilo que a fizesse sentir-se autêntica. Suas letras eram extensas, assim como a história dos incas no Peru. Encontrou no rap o canal de comunicação para falar sobre questões sociais e expressar seu conteúdo de maneira aberta, como forma de protesto. A artista peruana não se ateve ao básico: conectou o gênero musical de Nova York com Machu Picchu. No contratempo do rap, o tempo a favor dos incas. A batida ressoa a flauta andina, harpas e violinos utilizados na performance musical indígena mais típica do país: a Dança das Tesouras.



foto: divulgação


Seu primeiro single Qawachkanchik chay Killallata (Mirando La Misma Luna), revela a perseguição sofrida pelos jovens de língua quechua. A jovem foi inspirada por seus ancestrais incas, lembrando grandes figuras de sua história como Mama Ocllo, deusa das mulheres, e Pachacutec, imperador que ordenou a construção da famosa cidade perdida (Machu Picchu). Sua música põe fim ao ciclo de traumas geracionais e é um chamado para o respeito às diferenças étnicas do país. Sua canção Tijeras, infundida em ritmos folclóricos, contesta as injustiças enfrentadas pelas mulheres no Peru, como os crescentes feminicídios.


A aclamada canção Qam Hina é uma ode à sua avó e às jovens que vivem nas áreas rurais, enfrentando adversidades quando viajam quilômetros para a escola em busca de educação básica. A letra deixa claro que os povos que habitam as áreas rurais também habitam a sua consciência. Seu álbum de estreia, Isqun, que será lançado em breve, tem como maior inspiração as grandes mulheres andinas que romperam barreiras e não mereceram justos créditos nos colonizados livros de história, que ignoram a verdade. Um espelho impresso no som, o reflexo da mulher peruana e o contra-reflexo de sua alma.


A língua quechua sobreviveu não apenas à conquista dos espanhóis, mas à fundação das repúblicas independentes da região, cujos líderes desencorajaram o seu uso na tentativa de eliminar sua “dissidência indígena”. A língua de Renta Flores é a mesma, mas a linguagem é outra. O rap em quechua é um suspiro de liberdade para uma geração de peruanos que cresceu sufocada pelo medo. É a instrumentação andina e a letra de protesto que, pouco a pouco, curam feridas abertas em séculos de colonização e sistemas escolares eurocêntricos. O som do quechua dá conforto e segurança para que não se tenha vergonha da própria identidade. Renata Flores incentiva os indígenas do nosso continente a transmitirem ideias em suas legítimas línguas nativas, ajudando com honestidade de propósitos a evitar seu desaparecimento cultural e midiático. A América Latina existe. Entretanto, é a América Indígena que ganha valor, amor e respeito quando se comunica no idioma materno do “Umbigo do Mundo”.


*Felipe Viveiros, graduado em Relações Internacionais pela PUC-SP, tem extensão universitária em Comunicação Empresarial pela Universidade da Colúmbia Britânica (Canadá) e é mestre em Relações Internacionais e Organização Internacional pela Universidade de Groningen (Holanda).



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