IRLANDA GAÉLICA

Banda irlandesa Seo Linn rompe as fronteiras do tempo e conecta folclore celta ao pop do século 21.


Por FELIPE VIVEIROS*


Você está em um pub. Na mesa ao lado, um jovem de óculos se inclina no encosto da literatura e se perde nas páginas de um conto de James Joyce. Faz frio lá fora, mas não para os que se abrigam nos poemas de Oscar Wilde ou os que sentem calor de um jogo de rúgbi transmitido em uma das muitas televisões do bar. Bem diante de você, uma jukebox retrô e, ao fundo, uma sequência impecável de sucessos com Thin Lizzy, The Cranberries e U2. No ar, notas de guitarra, de café e malte torrado. Sua Guinness está pronta. Seja-bem vindo à Irlanda.


A primeira evidência de presença humana na Irlanda data de 10.500 a.C., muito antes de você ir ao pub. A “Irlanda gaélica”, de origem celta, surgiu no século 1 d.C e imprimiu na cultura irlandesa os pilares de suas organizações linguístico-sociais. A combinação de influências no país é visível, assim como o estilo distinto da música e da dança tradicional irlandesa, que se tornaram referências do que é entendido, no imaginário coletivo, por “cultura celta”. Ao lado das tradições deixadas pelos invasores ingleses, que marcaram mais de 800 anos de envolvimento político e militar, existe forte afirmação indenitária expressa através dos esportes gaélicos, língua e música irlandesa. O exemplo mais recente é a banda bilíngue e sensação emergente do país: Seo Linn.


Os membros do Seo Linn são verdadeiros poliglotas em termos de linguagem, estilo musical e instrumentação. Eles falam as línguas da música e da cultura irlandesa, e desfazem as marcas do tempo ao conectar folclore celta ao pop do século 21. Entre tradição e juventude, a banda faz da língua irlandesa o instrumento capaz de valorizar e reintegrar adolescentes irlandeses às origens e tradições de seu país. Seo Linn oferece um serviço sociocultural único para a Irlanda, conquistando base de fãs de maneira autêntica, reescrevendo e definindo o que é ser celta nos dias atuais.


foto: divulgação


A banda é um dos maiores grupos de língua irlandesa do país e mereceu destaque em 2013, quando seu cover de "Wake Me Up" do DJ Avicii viralizou nas redes sociais. Uma das razões do impacto do vídeo foi a escolha da língua irlandesa e não a inglesa, como na original. Entre versos e versões, uma sensação de coletividade emanava dos jovens da ilha ao norte da Europa. Enquanto os covers em irlandês serão sempre populares, são as estilizações pop, de canções tradicionais, que fazem a banda realmente se destacar.


As influências de Seo Sinn são como um verso de Oscar Wilde declamado pelo rock, um solo do U2 com notas de café. Suas canções são como o famoso símbolo do “nó celta” e visitam, em uma única paisagem sonora, elementos tradicionais irlandeses, rock da velha guarda, pop moderno e orquestra clássica. Ritmo, instrumentos de energia e vocais elevados, com nuances delicadas que pintam de verde os campos da Irlanda. Os integrantes têm uma paixão compartilhada por tocar, escrever, gravar e sentir a língua irlandesa, a mesma que deu nome a seu país. O nome “Irlanda”, em irlandês “Éire” deriva do irlandês antigo “Ériu”, uma deusa da mitologia do país. Ériu é uma personificação moderna da Irlanda e sua mãe-pátria. Os filhos de Ériu respiram história, transpiram identidade e estão abertos a inovação tanto quanto os ancestrais que lhes deixaram a cultura como sua mais nobre herança.


O álbum de estreia Solas, foi lançado em 2017 com poderosa interpretação da canção folclórica irlandesa, Óró 'Sé Do Bheatha Bhaile, intitulada 'Óró'. O sucesso foi imediato. Em língua irlandesa, o álbum acumulou mais de 5 milhões de visualizações no YouTube. Quando Seo Linn reinterpreta as canções tradicionais com sua própria instrumentação contemporânea, eles capturam e apresentam identidade única como banda. E como povo. O centenário clássico irlandês atrai enorme influência de figuras históricas, e foi o canto de rebeldes durante diversos momentos da História. A letra da canção, pede que a Irlanda expulse os invasores ingleses e alcance a independência.


Seo Linn dá um giro contemporâneo à tradicional balada de língua irlandesa, introduzindo uma série de instrumentos elétricos. O álbum foi premiado no Nós Music Awards, em 2017, na categoria “Álbum do Ano”. O nome, Solas, é a palavra irlandesa para “luz” e a imagem de uma lâmpada, que inclui a arte do álbum, simboliza a nova abordagem para normalizar o uso da língua irlandesa na música contemporânea. Um livro acompanha o álbum e é dedicado aos falantes e iniciantes da línguas irlandesa com letras e acordes, receitas e até insultos em irlandês. A combinação do livro com o material musical de originalidade indie e visibilidade pop tira a língua irlandesa da sala de aula e a torna acessível às novas gerações de descendentes celtas. Cultura é o vibrante meio de comunicação para uma nova geração. É ela que conecta o século 1 d.C com o século 21.


foto: Solas (2017) / divulgação


A língua irlandesa tem seus primeiros registros escritos entre os séculos 4 e 6 d.C., quando Saint Patrick introduziu o cristianismo na Irlanda no século 5. Um marco para a nação que compartilhava, até então, o politeísmo celta. Saint Patrick é o “Apóstolo da Irlanda” e o principal santo padroeiro do país. Com sua chegada, escritores irlandeses deixaram de escrever no alfabeto Ogham e começaram a reescrever as páginas celtas da Irlanda em alfabeto latino. Desde a conversão ao cristianismo, o catolicismo romano tem sido a principal religião da ilha. Após a Reforma Protestante na Europa, o catolicismo tornou-se intimamente associado ao nacionalismo irlandês e à resistência ao domínio britânico. Por isso o Saint Patrick’s Day , celebrado no dia da morte do santo, 17 de março, não é apenas uma festa religiosa, mas uma celebração do próprio país.


Após a invasão anglo-normanda do século 12, a Inglaterra reivindicou a soberania. O domínio inglês se estendeu pela ilha por séculos e, com o “Ato de União” de 1801, a Irlanda se tornou oficialmente parte do Reino Unido. Uma guerra de independência entre 1919/1921 foi seguida pela divisão da ilha, criando o Estado Livre Irlandês. Logo após o país ter sido estabelecido como Estado Livre em 1922, o irlandês foi adotado como língua oficial junto com o inglês. A língua irlandesa tem experimentado um renascimento nos últimos anos, introduzindo um serviço de rádio, uma estação de televisão e bandas que cantam e produzem música no idioma nativo. Apesar de seu declínio, o irlandês nunca deixou de exercer uma forte influência na consciência irlandesa.


Seo Linn ilumina o caminho para mudar a narrativa em torno da língua. Música e energia juvenil fazem do irlandês – o idioma e o cidadão – relevante, poderoso. Jovens cantam, dançam e são influenciados pelas músicas da banda, traduções do mundo em irlandês. Você está em um pub e nas páginas de James Joyce, nos poemas de Oscar Wilde, no calor do jogo de rúgbi é a jukebox retrô quem toca a sequência impecável de história celta. No ar, o canto de Ériu em perfeita harmonia, sua deusa das notas de café e malte torrado. A Guinness está pronta, mas desta vez o sabor é bilíngue, guerreiro e eternamente contemporâneo. Bem-vindo ao mundo celta de hoje!


*Felipe Viveiros, graduado em Relações Internacionais pela PUC-SP, tem extensão universitária em Comunicação Empresarial pela Universidade da Colúmbia Britânica (Canadá) e é mestre em Relações Internacionais e Organização Internacional pela Universidade de Groningen (Holanda).



DO RESTO DO MUNDO

cultura

  • Facebook
  • Instagram
  • Spotify

Copyright © 2020 Cultura do Resto do Mundo.

Todos Direitos Reservados. Arte do Site: Viviane Seeger.

  • Facebook
  • Instagram
  • Spotify