DAS RAÍZES ATÉ AS PONTAS

Filme venezuelano “Pelo Malo” revela a encaracolada perversidade racial e de gênero na América do Sul.


Por FELIPE VIVEIROS*


Brasil e Argentina, para os mais distraídos, parecem sempre os “protagonistas da América do Sul”. Seja nas guerras pelas disputas da Bacia do Prata – hoje o Uruguai – e a infame Guerra do Paraguai –, seja em âmbitos comerciais como a criação do bloco Mercosul ou, até mesmo, no turismo, como países mais visitados por estrangeiros. Na música, o tango, o samba e a bossa-nova também foram “turistas” que, de passeio pelo Exterior, fizeram a fama de nossos países pelo mundo. No cinema não foi diferente. A maior parte da produção sul-americana de filmes de 1930 até 1996 se concentrou em dois países: Brasil e Argentina. Já não mais. Tão diverso como o nosso continente, nas últimas duas décadas foi o cinema venezuelano que, ao retratar as complexidades de nossas sociedades em estilo próprio, atraiu os holofotes do mundo. Um grande exemplo é o filme Pelo Malo (2013).


Você já deve ter ouvido a insana frase: “Não existe racismo na América do Sul. Somos todos mestiços”. Pelo Malo explora racismo e homofobia nas invisíveis ondas dos cabelos lisos e mostra, de maneira provocadora, o quão encaracolada pode ser a perversidade da história racial de nossos países. Pelo Malo, em português, “cabelo ruim”, é a frase que se repete não só na Venezuela, mas em todo continente sobre aqueles que não tiveram a sorte de nascer com “uma boa genética”. O filme, escrito e dirigido por Mariana Rondón, recebeu muitos elogios da crítica desde o seu lançamento. No aclamado Festival de San Sebastián, na Espanha, a produção recebeu a "Concha de Oro", prêmio máximo da categoria de Melhor Filme. A trama, que parece simples, é uma janela pra as complexidades da América do Sul.


Junior é um jovem de nove anos de idade que vive em um apartamento modesto na capital, Caracas. As aulas estão prestes a começar e o garoto está obcecado em alisar o cabelo, ansioso para tirar fotos para o anuário escolar. Junior, de cabelo encaracolado, sonha em ser um cantor pop de penteado liso, escorregadio e brilhante. Obcecado por sua aparência, o menino se inspeciona no espelho e tenta de tudo para esconder seus cachos desde métodos convencionais como escova de cabelo e secador, até os menos ortodoxos como óleo de abacate e maionese. As insistentes tentativas de mudar o penteado levam Marta – mãe solteira, desempregada e de pele clara – à loucura e ameaça raspar o cabelo do menino. A violência surge quando as diferenças não agregam, separam.


foto: divulgação


Muitos enxergam as capitais sul-americanas como cidades violentas. O filme é um aviso: a violência nem sempre vem armada. Agressões acontecem todos os dias pelos olhares, gestos, palavras, intenções. O que parece ser incompreensível para muitos, é a própria história dos personagens de Pelo Malo. Junior, constantemente, vai em direção ao espelho para arrumar seu “cabelo rebelde”. Metáfora para janela de nossa identidade, reflexo de reconhecimento do nosso eu.


A produção se desenvolve nos edifícios construídos na década de 1950, com o início do modernismo arquitetônico na América do Sul. As construções mostradas no filme foram projetadas pelo arquiteto suíço Le Corbusier em uma experiência de grande utopia. Mundos diferentes compartilham o mesmo espaço, na arquitetura da democracia, na confluência de visões. A câmera mira através dos olhos de Junior enquanto ele e uma amiga do bairro fazem “uma pesquisa” sobre o complexo habitacional em Caracas. Do outro lado da rua, os jovens inventam histórias sobre seus moradores. O edifício gigante é um microcosmo social da capital venezuelana. Cada um dos 568 apartamentos conta uma história. Cada quarto é uma janela para a sociedade em que vivemos. O filme abre espaços para discussão, seja nas portarias dos prédios ou nas salas de reuniões do governo. Pelo Malo faz com que donas de casa e filósofos conversem sobre o quão racista é a Venezuela.


Os atores nunca tinham feito um filme antes. Sua sinceridade é universal, um olhar raro sobre as relações raciais na América do Sul. Na Venezuela, embora haja miscigenação, existe um ditado popular de que a segunda indústria mais lucrativa depois do petróleo é a de alisamento de cabelo. Os cachos grossos e escuros são, nada mais, que um símbolo da origem étnica mista com ancestrais indígenas, africanos e europeus. A indústria da beleza capitaliza as inseguranças das pessoas e os desejos de se conformarem com certos ideais. Nasce, pela raiz, o conceito de “cabelo bom”, o queridinho dos xampus fortalecedores dos emaranhados ideais homogêneos na sociedade sul-americana.


O filme, neorrealista e de cabeça fria, não perde tempo com peculiaridades psicológicas. É político. Para a mãe, a falta de interesse de Junior pelos esportes e a obsessão com sua aparência são sinais de que o menino possa ser gay. Culpando-se por sua suposta efeminação, ela o leva a um pediatra e, em consulta, adverte o médico: "Ele canta e escova o cabelo o dia todo. Quero saber se ele é gay". O médico o declara saudável, mas necessitado de modelos masculinos. O diagnóstico de que o grande macho sul-americano nunca alisa seu cabelo. Querer um cabelo liso é socialmente aceitável apenas para as mulheres.


foto: Cinema Tropical/FiGa Film


Pelo Malo inicia uma conversa sobre as expectativas de gênero e sexualidade na cultura venezuelana. A avó negra e paterna de Junior, tem um secador de cabelo e lhe dá dicas de grooming. Em cena carregada de metáforas, o menino tem metade da cabeça com o cabelo encaracolado e a outra metade com o cabelo liso. Os penteados em duelo sugerem um conflito interno entre conformidade e individualidade, em um ambiente restritivo. Mais do que transmitir uma sexualidade ambígua, eles refletem a estreita gama de auto expressão na Venezuela sob Hugo Chávez, que na época do filme estava doente, mas ainda vivo.


O filme, em estilo próprio venezuelano, faz com que muitos sul-americanos se identifiquem. Nos últimos anos, em diversos países, houve um aumento significativo de pessoas que assumem ser afro-latinas. O destino de Junior não é claro, assim como a maturidade racial e de gênero do continente. O que será da América do Sul quando for adulta? O filme dá ao público um retrato da vida cotidiana que luta com sua identidade e sexualidade diante da intolerância da mídia e da família. A Venezuela não é protagonista na América do Sul. A América do Sul é protagonista na Venezuela. São os fios de cabelo do nosso continente que conduzem os preconceitos que saem das raízes até as pontas. Uma preocupação eterna e cabeluda de nosso continente.


*Felipe Viveiros, graduado em Relações Internacionais pela PUC-SP, tem extensão universitária em Comunicação Empresarial pela Universidade da Colúmbia Britânica (Canadá) e é mestre em Relações Internacionais e Organização Internacional pela Universidade de Groningen (Holanda).


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